sábado, 18 de novembro de 2017

OPINIÃO | " Sexy-Fresh-Pop" | ANA KANDSMAR

Se eu mandasse em Portugal, a ASAE deixava de fiscalizar casas de pasto e os respetivos prostíbulos anexos. Deixava de implicar com madeiras emporcalhadas e cagava na cena dos PPL-PPP-PPC (pia-para-legumes; pia-para-peixe e o resto já sabem). 

A ASAE para já, mudava logo de nome porque eu não o entendo na sua totalidade: “Autoridade de Segurança Alimentar e Económica” -eu entendo o que seja segurança alimentar, afinal temos de estar atentos ao que metemos na boca, na medida do possível. Mas segurança económica? São poucos os que podem dizer “sinto-me seguro economicamente”. E esta (in)segurança nada parece ter a ver com a ASAE.

Mas, como dizia, a ASAE transmutar-se-ia para a Autoridade de Segurança Auditiva e Económica (afinal não interessa se uma pessoa entende ou não o termo, acabo de aprender que o que importa é soar bem) e passava a fiscalizar locais de diversão diurna de entrada livre, como a Stradivarius ou a Bershka. Licença comercial só após o emudecer de uma Rihanna esganiçada em alto volume de som. Logo teríamos uma larga massa de adolescentes em crise existencial. Eu tenho uma filha adolescente. Sei bem do que falo e arrisco aqui algumas razões:

a. talvez uma toada sexy-fresh-pop ajude a esquecer a falta de dinheiro para comprar metade da loja.

b. talvez uma toada sexy-fresh-pop ajude as adolescentes a sentirem-se sexy-fresh-pop ao espelho com os trapinhos igualmente sexy-fresh-pop (é todo um universo…)

c. talvez uma toada sexy-fresh-pop deixe os funcionários sem qualquer capacidade para pensar  na miséria do salário que ganham e consequente merda de vida que levam.

d. talvez uma toada sexy-fresh-pop abafe os comentários das fêmeas mais ranhosas (“o cu dela não cabe ali…” ou “que mau gosto, a pindérica!

Fortes neuras e stresses domésticos fazem parte das rotinas dos progenitores atuais. Mais uma vez, sim, eu sei bem do que falo. Se pensarmos em pequena escala, mesmo em pequena escala vamos dar ao fim do mundo! Ora vejamos:

100 adolescentes ficam histéricas porque a Pull está em total silêncio. Cada uma delas fica frustrada porque esteve atenta o suficiente para ler as etiquetas dos preços. Depois de toda a tensão para largar o molho infindo de roupa que quase lhe despenca o braço e escolher apenas uma peça, apercebe-se que terá de fazer uma cirurgia para ter mamas. Sai do vestiário e ouve uns risinhos trocistas que põem fim à amizade de semanas e semanas! (nestas idades a intensidade das coisas não está mesmo no tempo que elas duram). Continuando… Estas 100 adolescentes seguem em fúria para casa, depois de com os nervos, terem partido duas ou três unhas de gel. Uma desgraça!

Já estão a ver o filme – mães em pânico, pais que não cedem ao diálogo, tias que põem água na fervura, uma tensão de morte durante dias até que, 100 adolescentes resolvem deprimir…automutilam-se, fazem greve de fome, ameaçam fugir de casa… é uma bola de neve. Se isto ocorre em dezembro, (está quase aí) época da febre das comprinhas para o Natal, o vestidinho curto (muito curto) cheio de lantejoulas para o réveillon mais “In”de todo o sempre (para os pirralhos tudo tem que ser o best do the best), numa discoteca supermega bem frequentada pelos magníficos sexy-fresh-pop do Love on Top… imaginem…! É o estado de sítio para um número considerável de famílias e um acréscimo exponencial de clientes na psiquiatria! De modos que a minha teoria bate certo. A música imprópria para consumo nos estabelecimentos comerciais tem tudo a ver com o lado ordeiro de um povo. Tenho dito.

Ana Kandsmar - Escritora | Colunista Nova Gazeta


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