segunda-feira, 19 de março de 2018

CRÓNICA | Gatos e Selfies | VANESSA LOURENÇO


Pegou bruscamente no gato amarelo sem olhar para ele a direito sequer, com uma mão apenas. Na outra, brilhava o ecrã vidrado do telemóvel. Atirou-se para cima da cama, com o gato ainda encaixado no braço, e com as costas da mão que segurava o telemóvel posicionou desajeitadamente as almofadas e alisou a colcha da cama. O gato, incomodado, tentou libertar-se do braço que o prendia, mas ela não permitiu que fugisse. Colocou a câmara do telemóvel em modo selfie, e enquadrou-se a sí e ao animal na imagem reflectida no pequeno ecrã. Sorriu e fez olhinhos de mel, mas depressa franziu o sobrolho, uma das almofadas estava desenquadrada. “Não pode ser”, pensou, “a foto tem que ficar perfeita”. Ajeitou a almofada, mas quando olhou de novo para o pequeno ecrã percebeu que quando se tinha esticado para ajeitar a almofada, tinha enrolado a colcha debaixo de si mesma. Levantou-se com enfado da cama, a bufar e de gato nos braços. Esticou a colcha e deitou-se de novo. Desta feita, o gato já não estava preocupado em mostrar-lhe com gentileza que estava farto de ser tratado como um peluche, e começou a debater-se vigorosamente. Na tentativa de não o deixar fugir, ela deixou cair o telemóvel, que bateu no chão com estrondo. Deu um grito e levou as mãos à cabeça, o que deu ao gato a oportunidade perfeita para desaparecer pela porta do quarto. Saltou da cama num segundo e apanhou o telemóvel do chão, com o coração nas mãos e a respiração acelerada. Se estivesse partido tão cedo não teria direito a outro, e ficaria isolada do mundo. Se não estivesse presente nas redes sociais, o que pensariam os seus amigos? O mundo esquecer-se-ia dela!

Apanhou o aparelho do chão, e confirmou que não estava partido. Suspirou profundamente e apertou-o contra o peito, os olhos fechados de quem não tinha ganho para o susto. Aliviada, depressa se recompôs: caminhou na direcção da cama, ajeitou de novo a colcha e as almofadas, e olhou em volta à procura do gato. Afinal de contas as pessoas adoram gatos, e todas as fotos tiradas com eles tinham muito mais interesse e geravam muito mais interacção na rede do que fotos simples da cara. E com ele podia mais facilmente justificar a vontade de publicar fotos de si própria, sem necessidade de perder a modéstia.

Saiu do quarto à procura dele, mas por muitas voltas que desse não o encontrou: chamou, procurou nos locais mais improváveis e até abriu uma lata de atum, coisa que o fazia sempre aparecer se estivesse por perto. Nada. Só havia uma coisa a fazer:

- MÃE! Viste o gato?

A mãe estava a trabalhar no próximo artigo para o jornal, sentada em frente ao computador. Ergueu ligeiramente os olhos para ela, ajeitando os óculos na ponta do nariz, e respondeu antes de voltar a fitar o monitor:

- Parece-me que saiu para o jardim.

Ela encolheu os ombros, exasperada, e rolou os olhos. Como não tinha pensado nisso? Aquela peste peluda adorava esgueirar-se para fora de casa sempre que lhe era possivel. Dirigiu-se para a porta, pegou nos óculos escuros e saiu, de telemóvel ainda na mão.

Lá fora, mesmo de óculos escuros, não pôde evitar sentir os olhos feridos pela luz do sol durante uns segundos, e só depois reparou no esguio gato amarelo sentado na relva no centro do jardim, a olhar para ela. Esfregou os olhos debaixo dos óculos de sol, e avançou para ele:

- Espero que tenhas perdido a vontade de fugir, isto é importante!

O gato pareceu sorrir, e fechou os olhos enquanto lambia a pata, para depois começar a esfregá-la no focinho vigorosamente. Aproximou-se com ligeireza do pequeno animal e sentou-se ao lado dele, procurando enquadrar no pequeno ecrã do telemóvel a si própria e ao gato ainda sentado ao seu lado. Depois de várias tentativas frustradas, porém, resmungou:

- Bolas! Não consigo tirar uma fotografia de jeito com este sol!

Frustrada, começou desajeitadamente a tentar levantar-se com o telemóvel na mão, e quando percebeu que sentada não conseguia girou o corpo para ficar de joelhos. E nesse momento reparou novamente no gato: já não estava sentado, quieto. Estava a brincar com um pequeno ramo que possuia ainda algumas folhas que se agitavam no ar. Sem pensar, sentou-se de pernas cruzadas e pegou no ramo. Pousou o telemóvel na relva ao seu lado e começou a brincar com ele. Uns segundos depois, rebolavam ambos pela relva e ela ria como nunca, já sem óculos de sol. Longe de o pensar, sentiu que há muito que não se divertia tanto. E se tivesse pensado mais um pouco, teria percebido que não estava ninguém a ver. Ninguém a filmar. Ninguém a fotografar. Ninguém a deixar “gostos” ou “adoros” no que estava a fazer. Ninguém saberia. E, contudo, estava feliz. Era feliz. E podia ser feliz, sem que o mundo precisasse de o saber. Ou de o validar.

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