quarta-feira, 14 de março de 2018

CRÓNICA | O lobisomem que ia dormir ao palheiro do meu tio | HÉLDER MENOR

Quem acha que os lobisomens são coisa de filme, desengane-se. Os lobisomens são tão reais como eu que te escrevo e tu me lês. Sei de gente que não só os viu como conviveu com um  deles.

Aqui mesmo no Alto do Seixalinho, nos anos 50 do seculo XX havia um lobisomem que alguns recordam. Há ainda muita gente que se lembra do Manel-Cão e das suas “crises”.

O Manuel trabalhava como serralheiro e fazia a sua vidinha normal… mas em certos períodos, influenciado pelas Luas ou por outros fatores igualmente misteriosos, virava lobo. As pessoas na época diziam que virava cão… e nós que somos mais esclarecidos porque já papamos mais séries de Domingo à tarde na televisão, percebemos que o Manel era um lobisomem e que não virava cão, mas sim lobo! O que de resto, genética e cientificamente falando é praticamente a mesma coisa.

Num tempo em que a saúde mental era ainda mais estigmatizada do que hoje é, as crises do Manel-Cão, não eram motivo de internamento compulsivo nem sequer de grande alarme entre a vizinhança. Causava medo e excitação entre os miúdos da rua e constrangimento ao próprio quando voltava a si. Quando a crise vinha, o Manel revirava os olhos e arreganhava os dentes, ficava com as mãos como patas e os dedos como garras, imediatamente caía no chão e passava a andar de quatro. Rebolava-se e babava-se, depois uivava. Uivava muito. Quando acalmava, já não era o Manel, era um cão. Um lobo domesticado pela solidariedade dos homens rudes da época. Ladrava e corria entre pessoas, carros e carroças a disputar à dentada com outros cães a afeição de cadelas ou perseguindo gatos. Levantava a perna para urinar nas esquinas ainda dentro do fato-macaco que ao longo dos dias que durava a crise, se ia transformando em farrapos. Andava assim “virado” lobo durante dias. Às vezes semanas. O meu tio Zé era simultaneamente amigo do Manel e também amigo do cão, nos dias da crise dava-lhe abrigo e comida. Punha-se-lhe umas mantas no palheiro, leva-se-lhe carne cozida e deixava-se-lhe uma tigela de barro com água que o Manel bebia esticando a língua como os cães e os lobos. A minha tia, era uma mulher de armas que acordava todos os dias às quatro da manhã para tratar das vacas e não tinha medo de nada; nesses dias preferia não ir ao palheiro, mas era ela quem cozinhava a carne e quando o lobisomem saia de manhã a correr de gatas pelos campos, era ela quem sacudia as mantas.
Os miúdos fugiam do Manel Cão que os perseguia e ladrava querendo morder. Alguns atiravam pedras e o Manel ainda corria mais. Depois aparecia um homem que fazia “txitó” e batia os pés no chão e o Manel ia embora a rosnar e a ladrar de longe.

Quando a lua mudava, a crise passava… o Manel envergonhado e sem se lembrar o que tinha acontecido, voltava para casa, tomava banho e tratava as mazelas do corpo ganhas nesses dias em que era lobo: unhas partidas, cortes e arranhões nos dedos e nos joelhos, marcas de dentadas de outros cães nos braços e às vezes na cara…

Foram anos assim. Depois levaram o Manel a um senhor em Alcochete que era bruxo e o curou com rezas, chás e visitas à campa do pai. O Manel fez o tratamento e nunca mais virou cão nem lobo nem nada além dele mesmo.

Não foi preciso ir para a fila no centro de saúde nem esperar pela consulta do especialista. Não foram precisos comprimidos para a depressão. Nem psicoterapia, nem sessões de grupo, nem balas de prata, nem padres, nem exorcismos. Apenas umas rezas abastardadas do latim ditadas e escritas num papel pardo pelo vidente de Alcochete, uns chás de ervas embrulhados em jornais e umas idas ao cemitério. 

Nesses tempos remotos, que separam duas gerações, não havia medicina tradicional chinesa nem tratamentos com agulhas. Toda a medicina era alternativa, porque os poucos médicos de bata branca que havia, era em exclusivo para aqueles que tinham dinheiro. Os pobres só recorriam à medicina em situações extremas, muitas vezes para morrer. Quem não tinha dinheiro, resolvia os problemas como podia.

Hoje o Manel tinha sido tratado pelo médico de família com antidepressivos. Se o Manel vivesse agora, não era cão, nem lobisomem seria apenas mais um doente bipolar e o senhor de Alcochete que o curou continuava entretido a pescar enguias virado para Vila Franca.

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