quinta-feira, 8 de março de 2018

CRÓNICA | A Tropa | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

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“Cabo é rabo, rabo é cú, cú é merda e merda és tu” e foi ao som da melodiosa música acompanhada pela banda do seu aquartelamento que Nunes ficou a conhecer a sua posição na hierarquia militar a partir daquele dia.

A verdade é que o coitado que estava habituado a fazer um pouco de nada foi obrigado a uma dolorosa recruta em Tancos e de nada lhe valia chorar, porque a partir daquele momento não tinha o paizinho para o aconselhar. Até uma ingreme ladeira de casquilho foi obrigado a subir e descer numa noite de trovoada e frio. No dia seguinte tiveram que furar as unhas dos pés do menino com um alfinete em brasa para que o sangue pisado pudesse sair. Dias mais tarde caiam-lhe as unhas. Na realidade o rapaz tinha umas unhas tão horríveis que o que lhe aconteceu naquele dia veio melhorar consideravelmente a visão daqueles pés.

Não havia uma única manhã em que o Nunes não chegasse atrasado à formatura sendo de todas elas severamente castigado. Mas aprenderia algo importante para o resto da sua estadia naquele SPA militar, a mais importante que não voltaria a lavar a roupa interior à mão pois isso deixava-lhe bolhas maiores que os próprios dedos. As camaratas, essas brilhavam depois de ser obrigado a limpá-las com a sua escova dos dentes, já as favolas do menino começavam a acumular uns fungos verdes que deixavam muito a desejar. Mr. Ed ficaria desgastado por encontrar um seu conterrâneo em tão mal estado.

Numa manhã, devido à sua petulância e à incapacidade de a controlar respondeu sorrindo ao seu sargento, escusado será dizer que nem se apercebeu quando a mão deste voou na sua direção entortando-lhe a gravata, e foi assim que tirou a fotografia para registo oficial, faces rosadas e bivaque ao lado. O pior mesmo foi quando todo o seu batalhão foi castigado por se ter recusado a comer a ração de combate, passaram toda a noite a marchar à chuva. As represálias do que aconteceria posteriormente prefiro não as descrever por serem demasiado gráficas.
A verdade é que ansiava pelo fim da recruta.

Num final de tarde de sexta-feira na primeira vez que lhe era dada ordem de soltura o Cabo Nunes voltava fardado, havia que impressionar a vizinhança a quem o pai já dissera que o filho era Major.
Para a mãe sobrava uma vez mais a lavagem das cuecas e meias do menino que de tão sujas que estavam conseguiam manter-se em posição de formatura na janela da varanda do seu quarto.

Naquele fim de semana tantas vezes o asno se queixou a seu pai das injustiças a que era submetido que este só para não o ouvir mais lá conseguiu meter uma cunha através de um amigo, de um amigo, de um amigo que conhecia um comandante de pelotão perto de casa para ver se o menino ficaria mais resguardado até ao final da tropa.

O asno zurrou de prazer tinha uma vez mais conseguido ser bafejado pela sorte.


E assim lá voltou para o aquartelamento escolhido à base de muita cunha naquela segunda-feira de manhã onde passou a fazer recados da secretaria e a dormir todo o resto do dia num velho colchão abandonado num sótão do barracão das mercearias.  

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