quarta-feira, 11 de outubro de 2017

OPINIÃO | Flores de papel | MARGARIDA VERÍSSIMO

Abro de novo os olhos e fixo o olhar na luz colorida da vela. Vejo as imagens filtradas pelo sal das lágrimas que me inundam os olhos e a alma. Sobre o teu caixão fechado, um único ramo de flores. É um ramo de lírios em origami, são nove, tantos quantos nós somos, azuis, vermelhos, amarelos e verdes, os mesmos tons em que o brilho da luz das velas te ilumina o caminho. Apesar da tristeza do momento, o colorido sobressai, contigo e para ti não podia ser de outra forma, a alegria da cor é a tua mensagem. Desculpa se as flores não estão tão perfeitas quanto tu mereces, mas as mãos tremiam-me e os olhos enchiam-se de lágrimas.

Fecho novamente os olhos e vejo o teu sorriso. Vejo-te a sorrir, a gargalhar, com a tua caraterística boa disposição e alegria contagiantes. Revejo os momentos, os muitos e importantes momentos juntas. As férias de verão da nossa infância, as aventuras, os piqueniques no campo, os barquinhos que esculpíamos nas cascas dos pinheiros, as voltas à casa de bicicleta, os livros, teus e da tua irmã, que eu lia de empreitada, os jogos de tabuleiro que duravam horas… quando as horas duravam eternidades e ainda não tínhamos a noção que um dia podem mesmo parar. Revejo os carnavais e as fabulosas fantasias com que sempre se mascaravam, tu e os teus irmãos. Revejo o deslumbramento que senti quando ao acordar, da janela do teu quarto, vi o meu primeiro nevão! Revejo o enorme boneco de neve que construímos e as brincadeiras que fizemos na neve. Revejo-te no último verão em que estivemos juntas e no verão em que juntas decidimos que os nossos filhos mais velhos, da mesma idade, não comeriam mais as sopas de bebé.

Abro os olhos e observo o ramo colorido de flores de papel, olho através das cores do papel e olho para ti.

As palavras que te dirigem são sentidas, cheias de amor. Sabes, não é só na assembleia que estão os que te amam, também no altar está quem te ama…, mas tu já sabias que assim seria, não sabias?


As palavras que te disseram, as velas de luz colorida, o ramo de flores de papel, amarelas, azuis, vermelhas e verdes, a música que ecoou enquanto te levavam… Ai, a música, “Para Sempre”, que encheu a igreja, que abafou os soluços e nos preencheu a alma, de ti, de amor, do vosso amor. Foi Lindo! Tenho de te dizer, tenho estas palavras embargadas há muito tempo: o teu funeral foi lindo! Tão lindo quanto doloroso. A beleza sensorial dançando uma valsa silenciosa com a dor profunda, que nos rasga o peito e revolve as entranhas. Foi lindo porque o amor com que foi preparado, executado e sentido suplantou a dor e a tristeza. Foi lindo porque as pessoas maravilhosas mesmo na morte projetam beleza!














Margarida Veríssimo

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