terça-feira, 31 de outubro de 2017

CONTO | Noite de Samhain | MBARRETO CONDADO

halloween

            Que maldita noite tinham escolhido para se aventurarem pelos caminhos de Sintra só esperava que o carro não lhes falhasse antes de chegarem a casa de Elisabete. Catarina conduzia, tirara a carta há pouco mais de um mês mas fazia-o com uma fantástica mestria, nascera para aquilo. Tinha colocado a morada da amiga no GPS do seu telemóvel mas naquela zona já ficara sem rede por diversas vezes e habituada como estava a estas modernices da tecnologia nem se lembrara de imprimir um mapa que funcionaria como solução alternativa.
Na radio tocava a música do Michael Jackson, “Thriller”, como nem poderia deixar de ser, estavam na noite das Bruxas, na televisão deveriam estar a passar naquele momento todos os filmes de terror, desde a saga “Sexta-Feira 13” até ao “Pesadelo em Elm Street”, dos quais era fiel seguidora, mas agora ali, a olhar para a escuridão lá fora, com as árvores que pareciam criar formas que avançavam na sua direção, era aterrador.
Reparou que Catarina começara a conduzir mais devagar.
- Não me digas que não temos gasolina. Ou que o carro vai parar. Eu não quero ficar aqui neste isolamento, ouviste?
- Não, nada disso! Está a levantar-se um espesso nevoeiro e como não conheço bem o caminho prefiro ir mais devagar. E vê lá se paras de me assustar. Quero ficar aqui parada tanto como tu.
Suspirou. Sabia que o medo podia tomar conta de si a qualquer momento se começasse com aquelas ideias absurdas. Mas naquele preciso momento o seu telemóvel desligara-se, perdera a pouca bateria que tinha.
- O teu telemóvel está a funcionar Cat?
- Não o trouxe!
- Não o trouxeste? Mas… - olhou mais uma vez para o seu que acabara de se desligar.
- O que é que aconteceu?
- Acho que fiquei sem bateria.
Olhou para ela, reduzindo ainda mais a velocidade.
- Como é que isso pôde acontecer? Não te lembraste de o carregar antes de sairmos?
- Esqueci-me… - não tinha desculpa. Tinha estado a jogar e por isso é que a bateria morrera mais depressa.
 - E então agora diz-me como é que pensas chegar a casa da Elisabete? Eu ainda só lá fui uma vez e era de dia, não sei se reparaste que o nevoeiro está a aumentar, quero sair daqui o mais depressa possível.
- E se voltássemos para trás até encontrarmos alguma casa e perguntávamos a alguém o caminho.
- Voltar para trás? Estás maluca? E como é que achas que eu dou aqui a volta? Ainda levamos com um carro se eu me atravessar na estrada para fazer inversão de marcha ou caímos numa valeta. Não me vou arriscar.
Não é que passassem ali muitos carros, mas mais uma vez tinha razão. Aquele seu tão característico bom senso deixava-a sempre desarmada.
- Vamos continuar e assim que virmos luzes paramos e perguntamos qual a direção a seguir.
- Está bem Cat. Mas vê lá se consegues ir só um pouquinho mais depressa.
Torceu o nariz mas não lhe respondeu.
- Será que esta serra tem lobisomens ou até mesmo vampiros?
- E se te calasses?
Não trocaram mais nenhuma palavra, estavam ambas assustadas.
- Olha ali - apontou para a frente - estás a ver aquela luz?
- Estou. Achas que é uma casa?
- Não sei.
- Vamos ver, mas espero seriamente que não estejas a pensar sair do carro.
Realmente ainda não pensara no que faria. Era evidente que não queria sair da protecção que o carro lhe conferia, mas àquela hora e com aquele tempo não andava ninguém por ali e se tivesse que bater à porta daquela casa e pedir ajuda. Fá-lo-ia.
A luz tremeluzente parecia vir lá de dentro. Saíram da estrada estacionando na larga berma diante do portão. Catarina parou o carro sem o desligar, não se queria arriscar a que não voltasse a pegar.
            Era de pedra com um ar bastante decrépito, um velho portão de madeira que a humidade da serra apodrecera com o tempo, algumas árvores tombadas e a vegetação cerrada que mal permitia ver o caminho de acesso. Parecia mais uma ruina do que uma casa. Mas não estava abandonada a luz a brilhar lá dentro confirmava-o.
            - E agora o que é que fazemos? - abriu um pouco a janela, o ar da noite era gelado e, contudo, naquela casa não havia fumo a sair pela chaminé. Como se aqueceriam? Não parecia ter eletricidade.
            - Não sei Marta. Só sei que daqui não me mexo, e se calhar era melhor fazeres o mesmo. Devíamos ir embora enquanto podemos.
- Calma, esta não é uma casa de chocolate nem nós somos o Hansel e a Gretel. Espera pareceu-me ver algo a mover-se. - Fechou a janela. Não ia sair do carro estava decidido.
Não sabiam o que fazer a seguir.
Uma mão bateu ao de leve na janela do seu lado. Gritaram as duas ao mesmo tempo olhando a medo, não tinham visto ninguém aproximar-se. E no entanto ali estava uma velha senhora embrulhada numa capa que as olhava serenamente.
- Desculpem se as assustei meninas. Não era minha intenção.
Olhando para ela percebeu que devia ter muita idade, meteu-lhe pena por a ver ali tão só, com aquele frio. Carregou no botão para voltar a descer o vidro com Catarina ao seu lado a murmurar-lhe “não abras, não abras”. Resolveu ignorá-la.
- Boa-noite.
- Boa-noite minha filha. O que fazem na serra tão tarde?
- Vamos para casa de uma amiga mas parece que nos perdemos. Será que nos poderia ajudar.
- Assim o espero.
- É uma casa amarela grande, sabemos que é nesta direção e que fica perto da Quinta da Regaleira, tem um grande portão de ferro forjado, mas infelizmente não me lembro do número nem se tem nome.
- Eu posso ajudar-vos, conheço a casa. Vão na direção certa, devem continuar este caminho até ao final quando encontrarem a encruzilhada devem voltar à vossa esquerda subam uma estrada de terra batida e encontrarão o que procuram. Não têm como se enganar.
- Muito obrigada minha senhora e muito boa-noite.
Preparava-se para fechar a janela.
- Só mais uma coisa, - a velha senhora olhava ora para uma ora para outra. - Não devem voltar a parar. Se virem alguma coisa neste caminho que vos chame a atenção continuem sempre em frente, nunca olhem para trás.
Agora começava a ter medo.
- Não estou a perceber? O que quer dizer com isso? O que é que poderíamos ver?
- A serra à noite não é segura, mas nesta noite em particular o véu entre os mundos é muito ténue, as almas andam entre nós antes de fazerem a sua passagem. Devem ignorá-las e se por acaso as olharem elas irão tentar seguir-vos e ficarão presas neste mundo até ao próximo Samhain.
- Samhain?
- Esta é a noite da santificação, celebramos aqueles que nos antecederam e aqueles que se preparam para partir. Os mortos.
Aquilo não estava a acontecer.
- Obrigada. Vamos seguir o seu conselho.
Já só queriam sair dali o mais depressa que conseguissem. Entretanto um gato preto tinha saltado para cima do capô do carro. A velha senhora pegou-lhe voltando-se para o caminho de acesso à casa.
- Vamos embora e depressa, estou cheia de medo. - Catarina olhava para a estrada, certificando-se de que era seguro avançar.
- Nem faltou o gato preto. Reparaste?
Voltou a olhar para aquela casa e reparou que a luz que anteriormente brilhara já não se via. Resolveu não comentar esse facto com Catarina. Tremia, numa mistura de frio e medo, ligou o aquecimento do carro e fechou momentaneamente os olhos.
Não falaram durante o resto do caminho, olhavam à volta cada uma rezando para não encontrarem nada esquisito como aquela velha senhora profetizara. Seguindo as suas indicações rapidamente chegaram a casa de Elisabete, que as esperava.
 - Finalmente. Não me digam que se perderam?
- Nem me digas nada. Se não fosse uma velha senhora de uma casa lá em baixo no caminho não daríamos com a tua.
- Qual velha senhora? Qual casa?
- Não comeces? - Catarina fechou o carro colocando as chaves no bolso das calças. - Já sabemos que dia é hoje e já ganhámos para o susto.
- Não me estou a meter com vocês. Mas na estrada que vem da vila até minha casa não existe nenhuma casa.
- Claro que existe. Tem um portão de madeira quase podre, uma decrépita casa de pedra e muita vegetação a tapá-la, mas existe. Nós vimo-la. Estou a dizer-te que foi a sua habitante que nos ajudou a chegar aqui. 
Elisabete olhava-as espantada.
- É verdade que se conta na vila que há muitos anos atrás viveu aqui uma bruxa. Numa casa exactamente como a descreveste, de pedra com um portão de madeira, mas não passa de uma lenda.
- Estou a dizer-te que a vimos. Que falámos com ela - Catarina já começava a ficar irritada com aquela conversa.
-Vamos entrar, aquecer-vos e enquanto tomam qualquer coisa eu conto-vos o que sei dessa lenda.
Sentaram-se no sofá perto da lareira que já ardia aquecendo a sala.
- Então conta lá a história da bruxa que aparentemente inventámos. - Catarina continuava desagradada com a ideia de que tinham imaginado o que lhes acontecera.
- Conta-se que existiu uma jovem mulher de uma beleza estonteante que vivia na vila e foi acusada de bruxaria. Para evitar que a perseguissem refugiou-se aqui em cima na serra onde viveu até à velhice nunca mais contactando com ninguém. Os habitantes da vila vieram, diversas vezes à serra à sua procura, tinham receio dela, queriam prende-la, mas nunca a conseguiram encontrar diz-se que a sua casa estava protegida por um feitiço e só podia ser vista por almas puras que procurassem ajuda ou por outras bruxas. Consta ainda que todos os anos na noite de trinta e um de Outubro, à meia-noite, na hora em que o véu que separa os mundos é mais fino, na noite em que se celebram e honram os nossos antepassados, na celebração do grande Sabbat, aparece para acender fogueiras pela serra para ajudar a conduzir as almas para o seu eterno descanso. Diz-se ainda que se faz acompanhar de um gato preto que personifica a sabedoria, a energia e a proteção.
            - Estou toda arrepiada - Catarina já se encostava ao canto do sofá segurando os joelhos de encontro ao peito.
            - Como é que sabes isso tudo Elisabete? - Marta olhava-a curiosa.
            - Ouvi dizer.
            - Para lá com essa brincadeira que já estamos suficientemente assustadas. - Catarina olhava para Marta procurando o apoio dela.
            - Verdade ou não nesta noite acontece uma coisa curiosa na serra, venham comigo lá fora que eu mostro-vos.
            Caminharam pelo jardim até uma elevação de onde conseguiam ver a serra em todo o seu esplendor. Por todo o lado brilhavam várias fogueiras nos mais diversos locais e para dentro destas pareciam caminhar vários vultos brancos.
            Não queriam acreditar no que os seus olhos viam.
- Minhas amigas, começo a acreditar que as bruxas existem.
            Esta era a longa noite, a noite das almas, a noite em que se honram os que partiram. Era uma noite em que se celebrava o fecho de um ciclo e o início de outro. O medo que sentiam desaparecera, era bom pensar que a vida era muito mais do que pensavam conhecer. Parecia que ali também elas tinham a oportunidade de recomeçar, de acreditar.  
            Um gato negro olhava-as atentamente de cima do muro.
            Na realidade todas elas estavam ali unidas naquela noite por um elo que lhes era desconhecido, eram netas da bruxa da serra, e estavam ali com uma finalidade mas ainda não o sabiam.













MBarreto Condado

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