sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O TIO JAZIGO, de MBarreto Condado
















Há muitos, muitos anos, num lindo dia de primavera nascia em Lisboa um menino enfesadinho, filho mais velho de um homem que já na altura tinha idade para ser seu avô com uma jovem mulher conformada com o que a sorte lhe reservara na vida. 

Fez os estudos de liceu que não se sabe se terá terminado pois o pequeno tinha tanto de cabeça quanto de envergadura. Era, contudo, dotado de um exagerado ego complementado por uma assumida presunção. Aprendeu a viver de biscates e do charme aplicado a senhoras de avançada idade que além de falta de vista, felizmente para ele, já se contentavam com pouco.

Exigia que todos os que com ele privavam o tratassem por "Tio", sentia que dessa forma atingia o tão almejado estatuto social pelo que ansiava há tanto tempo. Dizia que tinha cursado engenharia e até frequentara direito, algo que nunca se viria a confirmar. A única certeza comprovada por fotografias é que tinha feito o serviço militar em cavalaria, pois essa era a única forma de no alto da sua garupa poder mostrar o porte altivo que lhe faltava no alto do seu parco metro e meio. 

Casou-se com a filha do comandante. Ganhando além de um sogro poderoso o ódio de todos aqueles que lutavam por aquela merecida graduação sem terem que se vender.

Mas também aqui não se sentiu completo, o que o levaria de volta aos seus velhos truques para com as velhas herdeiras.

Seria delas que viria a "herdar" as casas e o seu recheio, sempre em detrimento das suas verdadeiras famílias.  O melhor dos respectivos espólios era delapidado ainda durante a parca vida das velhas senhoras. O que lhe interessava chamava-lhe herança familiar, o que não pretendia manter, vendia e chamava-lhe "antiques". Sim porque com o tempo veio a ficar muito refinado na maneira de vestir e falar. Não saia de casa sem o seu plastron a envolver-lhe o pescoço. E não dispensava a utilização de vocabulário francês, como “restaurant”. Viria a tornar-se num verdadeiro "connaisseur" de todos os aspectos da doação em vida e de heranças.

Tornou-se detentor da maioria dos jazigos no cemitério do Alto de São João. Local onde passava horas tentando decidir em qual deles quereria ser colocado quando o seu momento chegasse. Sim, porque era muito importante manter as aparências mesmo para além da vida, tinha que ter em conta a vista privilegiada de cada um deles bem como os seus futuros vizinhos.

Gostava de afirmar aos poucos que o quisessem ainda ouvir que até o próprio Eça de Queirós, que tratava por tu, teria baseado uma das suas melhores obras se não a melhor, na sua linhagem familiar, tal era a fanfarronice.

Os jantares de natal, esses, eram sempre requintados e inesquecíveis, língua de vaca estufada bem regada com a única garrafa de vinho, também essa oferecida, tudo para dividir pela família contando que ainda tinham que sobrar “les restes” para o almoço do dia seguinte que seria soberbamente acompanhado de muito pão duro e fome.

As férias, essas eram sempre em casa de outros, onde fazia questão de ficar hospedado o tempo que achasse necessário para se recompor de tanta soberba. E era por principio que partia sempre sem se despedir. Afinal era um favor que lhes fazia ao presenteá-los com a sua tão ilustre presença.

Teve três filhos. O mais velho ao qual tratava por asno cedo foi enviado para um colégio interno, sempre era menos uma boca para alimentar. A filha mantinha residência permanente em casa de um primo, mas seria no mais novo que conseguiria ver alguns traços seus. O mesmo uso do plastron, de francesices, e com a mesma destreza de manter sempre a carteira na mão sem nunca a abrir para pagar.  Afinal, o dinheiro não nascia das árvores.

No dia da sua morte deixaria como legado móveis com caruncho, casas alugadas e um elevado espólio de jazigos. Até porque no final seria cremado e as cinzas deitadas em parte incerta.

Os jazigos, esses ficariam desertos apesar da vista sobre o Tejo. E é presumível assumir que no Inferno nem o Diabo gosta dele.  E será certamente lá que se escrevem neste momento os próximos capítulos d’"os ilustres jazigos do Tio".

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