quinta-feira, 14 de novembro de 2019

TEMPO PRESENTE EM CORRER DE ÁGUA, de Anita Dos Santos
















- E então, já resolveram o que se haverá de fazer para procurar por notícias dos rapazes depois de todo este tempo? – Perguntou o Ferreiro, com a sua voz retumbante, sem mais delongas nem cumprimentos.

- Sabemos lá o que se deve fazer… A cidade do Norte não é propriamente ali ao virar da esquina. – Resmungou o Mestre Arquivista, de sobrolho franzido e carranca feita, coisa pouco normal nele. 

- Sim, não podemos sequer enviar um pombo-correio… - Acrescentou o Mestre do Conselho acenando com a cabeça.
Viraram os dois os olhos para o Mestre Ferreiro, como quem espera uma resposta da parte dele.

- É lá! E estão à espera de que eu tenha uma ideia do que havemos de fazer? – Perguntou o Ferreiro, como se essa hipótese nunca lhe tivesse ocorrido, passando os dedos pelo cabelo farto.

- Pois claro! Não estás sempre cheio de opiniões? Então é uma boa ocasião para as colocar em prática. Vamos lá, salta daí com uma das tuas tiradas, para vermos que volta se lhe pode dar!

Ficaram os dois de olhos pregados no Ferreiro, à espera do que ele iria dizer.

O Ferreiro, visivelmente incomodado, deu um puxão para cima no cós das calças e começou a calcorrear a oficina. Valente responsabilidade que eles lhe estavam a colocar sobre os ombros… Agora tinha de arranjar uma qualquer saída airosa para aquela situação!

- Então, sabemos a direcção que eles tomaram quando daqui saíram. – Meia volta - Sabemos que caminho se pode tomar para ir ao encontro deles, se for caso disso. – Mais meia volta, para o outro lado… - Não tem de saber! Enviem um grupo ao encontro deles!

Ficou a olhar, de um para o outro de punhos na cintura e queixo erguido, peito cheio, como um galo de eira de penas enfunadas!

- Bem, é uma sugestão, não tenho dúvida nisso. – Afirmou o Mestre Arquivista, subindo e descendo os sobrolhos, com ar de contentamento.

- Muito bem! Reunião do Conselho da Aldeia logo à noite para decidirmos o que vamos fazer. – Acedeu O Mestre do Conselho, dando uma valente palmada nas costas do Mestre Ferreiro. – Vai avisando quem encontrares por favor, que nós vamos fazer o mesmo por nosso lado.

- Já agora, que acham de convocarmos o Raul? Ele ficou à frente da estalagem e, pelos vistos, tem-se saído melhor que o antigo Estalajadeiro… - Informou o Mestre do Conselho.

- Sempre achei o Raul um rapaz muito esperto e competente ao contrário do seu predecessor. Mas também sabemos no que ele deu, não é verdade? – O Mestre Arquivista tinha o sobrolho franzido ao falar.

- Ter-se aliado ao Negro e à Rubra esperando vir a tirar algum proveito dessa associação, sem qualquer escrúpulo pela destruição do verde nem consideração pelas pessoas da aldeia, diz tudo o que precisávamos saber sobre aquela pessoa. – O Mestre Ferreiro, não queria sequer nomear o Mestre Estalajadeiro.

- Estamos então combinados. Vemo-nos mais logo, na sala do Conselho.
E dizendo isto, o Mestre do Conselho e o Mestre Arquivista saíram da forja, cada qual pelo seu caminho para avisar quem faltava ser avisado.

Quando chegou à hora aprazada, foram chegando à sala do Conselho todos os convocados habituais e, pela primeira vez, também o Raul Estalajadeiro, assim nomeado a partir daquela altura.

Sentaram-se em volta da mesa e, de imediato o Mestre do Conselho começou a falar:

- Temos connosco o Raul Estalajadeiro, pela primeira vez e, como tal, penso que lhe são devidas as boas-vindas.

Raul Estalajadeiro, rapaz ainda jovem e a deitar corpo, ao ouvir o título, ficou corado como um tomate em tempo da apanha. Encarou os presentes e agradeceu.

- Obrigado por me terem incluído no Conselho da Aldeia.

- Nada mais justo, meu rapaz. – Respondeu o Mestre Arquivista.

- Já agora gostava que fossem os primeiros a saber que vou dar um nome à estalagem. Não me recordo de alguma vez ter tido nome, mas achei que era altura de lhe dar um. Vai chamar-se Estalagem da Mesa Posta.

- Ora aí está um belo nome para uma estalagem, sim senhor! – Concordou o Mestre Moleiro.
Os comentários de concordância ouviam-se à direita e à esquerda da mesa, para felicidade do Raul Estalajadeiro.

- Muito bem. – Interrompeu o Mestre do Conselho – O outro assunto que aqui temos de discutir é a ideia do Mestre Ferreiro sobre o que devemos fazer em relação à falta de notícias do André e do Vicente.

- E já vamos tarde! Já se devia ter tomado uma atitude mais cedo, se querem a minha opinião! – Remata o Mestre Oleiro.

- Isso nem parece teu, Oleiro, és sempre tão ponderado… - Responde o Mestre Moleiro, com tom de riso na voz.

- Pois sim, mas agora digo que já deixamos passar tempo demais!

- Calma! Em primeiro lugar nem sequer sabemos quanto tempo leva a chegar à Cidade do Norte nem qual é o caminho ao certo! – O Mestre Arquivista tentou acalmar os ânimos. – Depois eles tinham de resolver o que quer que levou as progenitoras a chamá-los lá e, só então, poderão voltar!

- De qualquer forma, o Mestre Ferreiro teve a ideia de enviar um grupo ao encontro deles, isto se já estiverem de retorno…

- Ó Mestre, e quem é que vai fazer parte desse dito grupo? – Perguntou o Raul ao Mestre do Conselho.

- Isso logo se vai ver, mas eu vou! – Adiantou o Mestre Arquivista, olhando para os interlocutores, para não deixar dúvidas.

- Tu vais? E achas que isso é um empreendimento para alguém da tua idade?

O Mestre Ferreiro, do alto do seu arcaboiço de um metro e oitenta, e da largura de ombros como uma viga de telhado, media a figura franzina do Mestre Arquivista, e as suas barbas brancas.

- O que é que tu estás a insinuar? Não tenho condições, ou idade, para acompanhar quem quer que seja? Isso está para se ver, não é verdade?

O Mestre Arquivista, quase em bicos de pés fazia recuar o Ferreiro que, de mãos atrás das costas, não se atrevia a encarar o outro nos olhos.

- Pronto, pronto! Nunca esperei ver-te perder a calma! – O Mestre do Conselho tentou apaziguar o Arquivista ao que este respondeu com uma fungadela virando as costas.

- Fazem aqui falta o André e o Vicente… - Disse o Oleiro em tom baixo.

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