terça-feira, 12 de novembro de 2019

HUMILHAÇÃO, de Maria Cecília Garcia















Para todas as mulheres que alguma vez sofreram maus tratos e conseguiram escapar. Para todas as outras, as que se humilham e não têm coragem para abandonar essa vida.

E para todos os homens, se conseguir tocar um, apenas um que seja, dar-me-ei por satisfeita.
Não somos inimigos nem ninguém é dono da vida do outro. Deixo-vos um pequeno testemunho, que podia ter acontecido a qualquer um de nós.

“Há um momento da minha vida, da nossa vida, que recordo frequentemente e não sei definir quais as sensações que me provoca. Sinto grande desconforto ao recordar, vergonha até, sobretudo sou invadida por uma sensação angustiante, um desejo enorme de voltar atrás no tempo e apagar esse momento. Já tinham passado tantos anos e esses episódios grotescos repetidos tanta vez que não consegui suportar.

Foi num daqueles dias terríveis em que não me davas paz, que me perseguias insultando-me, provocando-me, sem razão nem objetivo. Fazia parte do teu jogo cruel seguires-me pela casa, acossando-me, de nada valia fechar as portas, isso ainda era pior…

Ainda cá estão algumas portas marcadas que me fazem lembrar o que eu quero esquecer, cada risco, cada saliência na madeira, mostra-me o teu punho feroz, o teu rosto congestionado, o teu olhar enlouquecido. Rebaixavas-me com as piores palavras e atitudes até eu perder o controlo de mim.

Naquele dia, desnorteada, segurei-te por baixo dos braços e alcei-te com uma força que não sabia que tinha, encostei-te à parede à beira das escadas e olhei no fundo dos teus olhos. Dominei-te completamente. Por uma fração de segundo, apenas um piscar de olhos, vi-te rolando pelas escadas abaixo.

Sei que adivinhaste a morte nos meus olhos, senti como o teu corpo estremeceu. Nesse momento, só nesse momento, soube que tinha mais força do que tu e tive medo de mim, nesse instante soube que o fim de tudo o que me atormentava estava nas minhas mãos, e senti horror por ter sido contagiada com a tua violência.

Dei-te o que procuravas, a satisfação de me veres descer ao teu nível. Como quem acorda de um pesadelo no momento mais angustiante, larguei-te, pousei-te no chão e fugi, abalada com a minha própria reação. No teu rosto vi incredulidade, surpresa, vi terror nos teus olhos e até, pasme-se, admiração, mas vi sobretudo, humilhação…

E é esse sentimento, a humilhação que te causei, que me atormenta. Ainda hoje essa lembrança me acode sem licença e sinto o mesmo horror que senti nesse dia.

 Nem sempre causar aos outros o mesmo mal que eles nos infligem provoca qualquer satisfação.

Quando conseguias desorientar-me, fazer-me sair de mim, transformar-me no pior de mim mesma, sentavas-te na plateia, calmo, olhavas-me com repulsa, fazias com que me sentisse a pior das pessoas

- Não prestas mesmo para nada! És pior do que todas as putas que conheci!

E as tuas palavras faziam-me estremecer e como se uma mão gigante me segurasse, imobilizava-me, horrorizada de mim. Sentia asco, uma vertigem, uma náusea, queria vomitar-te do meu coração. 

Em dias assim, noites assim, a casa era invadida pelo silêncio e, em silêncio, deitávamo-nos na mesma cama. Tu dormias um sono profundo e ruidoso, agitado pela guerra que continuava ainda dentro de ti. Eu errava pelo quarto, sem sono, sem nada mais do que angústia e impotência.

Se despertasses encontravas-me enrodilhada na posição fetal, num canto da habitação que eu já não sentia minha. Nada era meu. Eu não era nada. Eu não queria nada.

No meu cérebro as imagens amontoavam-se, misturavam-se caoticamente, sem que conseguisse sequer dar-lhes um fio condutor. Não sabia o que tinha despoletado a tua ira.

Procurava uma saída, eu sabia que havia uma saída, mas não tinha coragem para enfrentar o mundo sem ti. No fim, culpava-me, eu era má, certamente algo tinha dito ou feito para causar tal tormenta. Arrependia-me de uma culpa desconhecida e rezava. Só Deus me podia ajudar. Medo, apenas medo… Medo de ficar só, medo de enfrentar um mundo que não me ia entender.

- Não vale a pena queixares-te, ninguém vai acreditar no que disseres, toda a gente gosta de mim.

E tinhas razão, ninguém iria acreditar, de ti apenas conheciam o melhor, o homem simpático, generoso, compreensivo, e eu tinha vergonha de falar, de mostrar que aquela mulher alegre, aparentemente feliz, não passava de uma vítima de violência, e eu nunca quis ser vítima de nada. Por isso, a culpa era minha.

Premeditado, jamais me tocaste onde pudessem ficar marcas. Nunca me deixaste um olho negro, nem os lábios partidos, nunca uma nódoa negra no rosto. No meio da ira animal que te consumia, escolhias o lugar onde podias bater. Os teus socos castigavam os meus braços, os ombros, a cabeça, apertavas o meu pescoço, retorcias os meus pulsos… As marcas que ficavam eu apressava-me a esconde-las, envergonhada.

Acreditava que a minha força era inesgotável, mas apenas era a mulher que levanta do chão a sua sombra e fica de pé, uma e outra vez.  Lembrar-me disso não me causa orgulho, apenas cansaço.

In: Um futuro livro

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