domingo, 19 de janeiro de 2020

HIBERNAÇÃO, de Maria Cecília Garcia















A pequena gata branca e surda insiste em vir para o colo dela, exige atenção, quer carinhos e ela sente prazer ao acariciar o pequeno animal.

É bom sentir que alguém, se assim se pode dizer, gosta dela.

Aquela mulher prestes a cumprir sessenta anos apercebe-se que o tempo passa rapidamente e não está a gostar disso.

Não é a idade o que a preocupa, não se sente velha, pelo menos não todos os dias.

Quando se olha ao espelho – já não se olha tanto como antes – descobre os sulcos e pequenas rugas. Às vezes custa-lhe reconhecer-se, mas isso é só quando olha para o espelho. No seu interior continua a sentir-se jovem. Melhor dito, a idade não tem importância, acredita que tem muito ainda por viver. Isto nos dias bons… hoje, não. Hoje, está cansada.

Entristece-se ao ver que os que a rodeiam pensam que ela já cumpriu o seu papel: pariu os filhos, criou-os com todo amor e dedicação, cuidou do marido... Foi a empregada doméstica, a mulher-a-dias, foi o cepo onde se descarregam todas as frustrações, aquela a quem tudo se exige e que não deve exigir nada…

Mas precisa de… amor, carinho, um beijo, coisas que não custam nada e valem tanto!

Mas, o que terá despoletado todo este turbilhão de desejo e ansiedade? Talvez quando decidiu voltar à escola e terminar o secundário.

Durante três anos, todas as tardes, pontualmente às 19:15, entrava na escola, cumprimentava o vigilante com um grande sorriso. Por vezes, pensava que ele a julgava maluquinha! Ninguém vai para a escola tão satisfeita!

Encontrava-se na cafetaria com os colegas, todos muito mais jovens, e sentia-se como eles. Assistia às aulas como se tivesse quinze anos, tratava os professores por Stor, fazia os trabalhos de casa e perdia as noites estudando, pesquisando na internet ou nos livros, seguramente com maior dedicação do que muitos jovens, era competitiva, tentava sempre que os seus trabalhos fossem os mais classificados, os de nota mais alta! Não porque se achasse melhor que os demais, mas porque não queria que houvesse qualquer dúvida sobre as suas capacidades e inteligência. Surpreendia-se com esta sua nova faceta, mas estava a gostar!

Para ela, a escola era o sonho adiado que agora conseguia concretizar. Era, também, um desafio a si mesma, tinha que provar a si e aos outros que ainda era capaz de aprender e fazer as coisas bem-feitas.

Descobriu que tinha opinião própria e nos debates sabia defender a sua posição com argumentos sólidos, descobriu que podia falar sem que a mandassem calar e que, mesmo que desse uma opinião da qual alguém discordava ou quando estava errada, ninguém se ria dela!

Ficava cheia de orgulho, feliz, quando os professores a elogiavam e sentia-se uma criança com as brincadeiras e provocações dos colegas, particularmente nas aulas de História, quando eles se queixavam de concorrência desleal devido à idade dela, pois diziam que ela tinha vivido a Revolução Francesa e a 1.ª República! Ela ria satisfeita e fazia rir todos os demais.

Ficava nervosa nos testes como não sabia que podia ficar e saía da sala com a sensação de não ter respondido a nada, para depois rejubilar ao receber os resultados dos mesmos!

Foi assim durante três anos cheios de ansiedade, alegria e satisfação. Mas foi também uma luta solitária. Ninguém lhe perguntava como iam as aulas, ninguém queria saber como lhe corriam os exames nem se interessavam pelas histórias que ela contava.

Finalizou o secundário com boas classificações, fez o exame de acesso à universidade e ficou preparada para continuar os estudos.

Ainda acredita que vai conseguir fazer um curso universitário! Depois pode morrer tranquila…

Um carro desceu lentamente a rua, o condutor olhou para ela, fez uma vénia e sorriu, continuando a olhar enquanto se afastava.

Olhou à sua volta incrédula!… não, não estava ninguém.... foi mesmo a ela que o homem se dirigiu! Sem dar por isso endireitou-se, relaxou os músculos do rosto e esboçou um sorriso, não para aquele homem de quem nem viu bem a cara, mas para ela! Mentalmente examinou a forma como estava vestida: as cores combinavam, a blusa ficava-lhe bem, o colar dava-lhe uma certa graça e um aspecto mais fashion e, claro, os óculos de sol! Será que se tinha esquecido de olhar à sua volta?

Ao longo de todos estes anos, nunca se interessou em saber se despertava algum interesse. Não que quisesse procurar alguém..., mas faz tão bem ao ego sentir-se apreciada!

Durante tanto tempo tentaram convencê-la de que não valia nada, embora resistisse e lutasse para manter a sua auto-estima, seguramente que não conseguiu tão bem quanto pensava.

Na sua aparente hibernação arranjou mecanismos de defesa: enquanto aspirava, cozinhava ou passava a ferro, continuava a sonhar, tal como quando era criança. Vivia histórias, fazia projectos, planeava crimes, arrependia-se, lia um livro, ou escrevia um…

In: História em Pedacinhos- As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar



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