sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

MÃE E FILHA, de Anita Dos Santos
















Tinha começado a trabalhar cedo, com apenas dezassete anos acabados de fazer, logo que tinha terminado a escola.

Empregou-se, em primeiro lugar, no escritório de uma loja no Largo de S. Domingos, e o contabilista, antes de a contratar, fez-lhe um tal exame que mais parecia estar a examinar um candidato a um cargo no Banco de Portugal.

Ela, respondeu a tudo certo e, com nervosismo. Era a sua primeira entrevista.

Trabalhou ali poucos meses, ao fim dos quais e, para grande aflição dos pais, se despediu intempestivamente, porque nunca teve paciência para aturar desaforos da parte de ninguém.

Chegada a casa e à mesa do jantar, deu a notícia aos pais.

- Hoje despedi-me. Amanhã já não vou trabalhar.

O pai, como de costume, não abriu a boca, ficando a olhar, sério, para ela enquanto a mãe, transtornada, tentava entender o que se tinha passado em concreto.

A mãe era outra conversa. Ela, era a companheira da mãe, tinha estado sempre ao lado dela desde que se lembrava, talvez por ser a mais nova. Sabia que a mãe compreenderia.

A mãe, apoiava-a sempre, ainda mais quando se tratava de coisas em que achava que queriam prejudicar a filha ou amesquinhá-la.

- Deixa lá. Vais ver que num instante arranjas trabalho noutro lado. - A mãe, olhou para ela, com um olhar como que a dizer, fizeste bem, vais ter ainda melhor.

Começou a trabalhar pouco tempo depois, de novo na baixa de Lisboa, de novo em contabilidade que era o que tinha aprendido e aquilo em era realmente boa funcionária. Seria, não sabia na altura, a profissão de uma vida.

Ainda não tinha decorrido um mês quando se dá a Revolução do 25 de Abril.

A partir dali quem tinha trabalho, conservava-o. A todo o custo.

A partir dali, suportou desaforos, sentiu na pele a mesquinhez de conversas murmuradas nas costas e sorrisos enviesados. 

A partir dali, lidou com patrões abusivos e déspotas, que olhavam para a sua pouca idade com olhos gulosos.

Os meses passaram, uns atrás dos outros.

Um dia, à hora saída, teve a grata surpresa de encontrar a mãe à sua espera.

- Mãe, não tinhas dito que vinhas ter comigo. Precisas de ir comprar alguma coisa?

- Vamos comprar alguma coisa, vamos.

- Então o que é? Precisas de quê?

- Vamos à perfumaria bonita. Aquela de que estás sempre a falar, comprar alguma coisa para ti.

- Mãe, lá é tudo muito caro!

- Uma vez não são vezes. Vamos lá embora.

E lá foram. 

Foram atendidas por uma funcionária prestável e sorridente que rapidamente a colocou à vontade, respondendo as suas tímidas questões iniciais e depois mais desenvoltas.

Saíram de lá não com um, mas com dois cosméticos que lhe faziam os olhos brilhar e punham um sorriso no rosto cansado da mãe.

Eram mãe e filha, mas eram cúmplices e amigas do coração.


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

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