domingo, 12 de janeiro de 2020

O ROUXINOL E A SUA CANÇÃO, de Vanessa Lourenço














Visitava-me todos os dias, assim como tantos outros: pardais, melros, corvos, gaivotas, falcões e até, de quando em quando, uma ou outra águia fazia a sua aparição nas imediações da minha casa. Mas ele era diferente: aparecia no jardim todos os dias pela mesma hora, como se provando que a natureza zomba dos nossos ponteiros neuróticos para marcar a passagem do tempo, como que mostrando que o verdadeiro tempo, aquele que realmente importa, se conta pelas visitas que fazemos aos que nos são queridos, pelos momentos em que a nossa alma avança, pelos momentos em que teimamos em escolher os caminhos que nos fazem sorrir.

Adiante.

Surgia no meu jardim todos os dias pela mesma hora e eu nem sempre dava por ele, a não ser quando ele decidia que a sua presença era demasiado significativa para ser ignorada e fazia voos controlados na direcção da janela ampla:  - Estou aqui! – Parecia dizer.

E nesses momentos eu dava por ele e interrompia fielmente os meus afazeres e as minhas deambulações por pensamentos escuros daqueles que nos limitam, e realmente não nos levam a lado nenhum. Ficava apenas ali, sentada e muito quieta com receio de o assustar. E ele voava mais uma vez na direcção da janela, e depois pousava numa das estacas altas colocadas um dia para segurar uma rede que há muito não estava ali, sobre uma luva usada para apanhar as ervas que parecia apontar em todas as direcções, resmungando que aquele não era realmente o seu lugar.

Ela nunca resmungava quando o rouxinol pousava sobre ela as pequenas patas decididas e se espreguiçava longamente, ou apenas parecia dançar sobre a borracha que não estava no seu lugar.

Ele nunca cantou nesses momentos, apesar de eu saber que ele tinha uma canção. Um dia, perguntei-lhe baixinho: - Porque não cantas nestas tuas visitas ao meu jardim?

Ele ajeitou-se na estaca, agarrando firmemente a luva desirmanada, e respondeu: - E quem te disse que não o faço? Por acaso consideras que todas as canções existem apenas para serem ouvidas?


Fiquei confusa, mas tentei não me mexer. Agitou no ar as asas pequeninas e acrescentou, antes de partir subitamente: - Tudo aquilo que é significativo para ti tem uma canção, mesmo que os teus ouvidos não a possam ouvir: as melodias têm uma canção, os sorrisos têm uma canção, as visitas têm uma canção. Mas às vezes, essa canção flutua nas tuas emoções sem emitir qualquer som, ou navega pelas águas turbulentas do teu espírito como uma onda silenciosa que te acalma os sentidos e te faz regressar ao teu centro, à tua luz. Compreende, todas as canções importantes são feitas de luz. E a luz nem sempre precisa de um som para se fazer ouvir. 

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