quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

DE ONDE NUNCA SAÍ - MACAU COM O ESPETRO DO PESSANHA, de Helder Menor















Ao fim de vinte e quatro horas de viagens sucessivas, cheguei. Entalado entre um belga flamengo e um suíço alemão, passei as 14 horas do voo Frankfurt-Hong Kong a servir de recheio de sandes entre os dois gigantes e a ver filmezitos da tanga. Tentei reler os vagabundos da verdade do J. Kerouc, mas sempre que me conseguia concentrar havia sempre alguém que chamava a hospedeira, coisa que disputava a minha curiosa atenção.

Finalmente a máquina baixou e eu lancei ferro nos mares da China. Hong Kong é imensa e organizadinha no pior sentido da palavra. Admito que é um sítio impressionante. Mas faltou-me espaço. Os passeios são pelo ar para que os carros andem nas ruas. Lojas de todas as marcas vendem de tudo a quem possa comprar. Bancos imensos com pessoas apressadas a entrar e a sair. Carros, autocarros, motas, motorizadas e elétricos. Homens de fato, mulheres pintadas de fresco todas as manhãs. Alta tecnologia a cada passo. Ingleses e chineses a fingir que são ingleses. Até os canteiros onde crescem flores têm o símbolo da coroa britânica e não se planta uma flor sem um decreto assinado pela rainha.

Que me desculpem os locais, mas detestei Hong Kong. Não me demorei. Mal cheguei, procurei o porto para sair.

Para ir para Macau, naqueles anos de mudança de milénio, era preciso apanhar o ferry que liga a antiga colónia portuguesa a Hong Kong. Foi o que fiz. No barco, no meio de uma esmagadora maioria de chineses, a milhares de quilómetros do Rossio, pude ler indicações escritas em português. Senti como se tivessem lá escrito aquilo apenas para eu ler...

Depois do ferry, Macau. Muita gente nas ruas, casas de banho públicas razoavelmente limpas e ruas com nomes portugueses. Toda a gente a falar chinês. Alguns, poucos, falam inglês. Quase ninguém fala português.

E eu que ia à procura das memórias do Camilo Pessanha.

Disseram-me que se come bem e que é dos poucos sítios do Oriente onde se pode beber vinho tinto a um preço razoável. Li histórias sobre casas de ópio. Segundo aprendi, os cabarets de Macau ficaram famosos no início do século XX pela liberdade vivida sendo dos primeiros locais do mundo com sexo ao vivo.

Depois do banho, da refeição possível e do reconhecimento ao perímetro da pensão onde estava, caí num sono profundo. Seriam umas onze e meia da manhã. Acordei às cinco da tarde. Tinha menos de uma hora de sol.

Saí a correr para ir ver a gruta onde contam que viveu o Camões. Cheguei ao jardim, estava a escurecer devagar, o busto do Luís Vaz plantado pr’ali numa pérgula. À volta da cabeça do poeta senhoras de 70 a fazerem tai chi. A inscrição numa placa de mármore em letras douradas. Deixei as senhoras a praticar e fui jantar para o porto. Depois, porque o meu fígado naqueles dias ainda trabalhava com a força do motor de um rebocador, fui para os copos. Em Macau, naquela altura, pode dizer-se que a noite era animadita.

Às cinco da manhã eu ainda sem sono.

Às seis, o sol a nascer, as portas dos bares a fecharem e as portas das mercearias a abrir.

Voltei a pé para a pensão a praticar o cantonês que aprendi repetindo a frase: quero uma cerveja. Deixei a janela aberta para acordar com o sol e acertar o meu relógio biológico com a Ásia onde estava. O sol cumpriu o seu papel, a ressaca também contribuiu para que a cama me cuspisse cedo. Seriam umas dez da manhã quando saí para a rua porque, tal como aprendi na noite anterior, “a casa é feita para os gatos capados e para os cães doentes”.

Na esquina da Rua de Pequim com a Rua de Shangai, à sombra do Casino Lisboa, há a esplanada do Imperador. Uma rua sem trânsito, mas com muita animação. Comi ovos estrelados, fruta, e bolachas que levava na mochila. Vieram ter à minha mesa três senhoras chinesas a propor companhia. As três lindas e de sorriso profissional e genuína simpatia que não desapareceu nem mesmo quando se foram embora depois de eu lhes perguntar se não me pagavam outro pequeno-almoço.

Depois de comer, decidi-me por ir ao que vinha. Fui procurar pelas memórias do Camilo.
Pensei que fosse fácil. Mas estava enganado.

Por onde quer que fosse, tudo traduzido em português que é também língua oficial de Macau. Nas livrarias, livros trilingues, em cantonês, mandarim e português. Desde a arquitetura à culinária. Milhares de patacas investidos na reconstrução de monumentos. Até um busto do João de Deus espetaram numa esquina. Nomes das ruas todos em português. Mapas, guias, revistas escritas em português que meia dúzia lia.

Milhentas referências ao Luís Vaz. Nenhuma referência ao Pessanha.

Fui à biblioteca portuguesa. Quis ir aprender.

Sobre o Luís Vaz, que merece todas as homenagens que se lhe façam, parece que nem sequer esteve por aqui... Uns dizem que sim, outros dizem que não, mas não há certezas... Apesar disso, em Macau temos o zarolho em todo o lado: o Parque Camões, as estátuas ao Camões e quinhentas mil referências ao Camões.

Relativamente ao Camilo, o imenso vazio. Do Pessanha, nada ou tudo o que que há é muito pouco. Naquele tempo, e falo de há menos de vinte anos, nem uma casa museu, nem estátuas, nem referências, nada. E hoje, em 2020, não me parece que seja diferente.

Procurei na livraria portuguesa, falei no Camilo Pessanha e mostraram-me um livrito que foi publicado por favor pelo Instituto da Cultura (correspondente ao Ministério do Governo Regional). Explicou-me o livreiro que o livro foi publicado mais por carolice de um tipo que vive em Macau e que conhece e aprecia a obra do Pessanha do que por opção de política cultural portuguesa.

Li o que pude no livro que me vendeu barato e continuei na busca da memória do Camilo, fui ao cemitério de Macau.

Andei à procura da campa do poeta. Com muito esforço, lá encontrei.

Está enterrado com a mulher e com o filho, numa campa comum no meio do labirinto das outras tumbas. Deixei-lhe três rosas brancas. Naquele tempo, o governo português e a diplomacia cultural, coitadinhos, não tinham dinheiro para pôr flores na campa do homem. Nem sequer havia orçamento para mandar limpar aquilo. Tenho a certeza que agora é diferente! Eu, que ignorante me confesso, grunho e suburbano, a persistir no Pessanha. A pensar que, se houve alguém que fez uma fusão de culturas entre a China e Portugal e que marca bem o orientalismo lusitano, esse alguém foi o Camilo Pessanha.

O gajo que nasceu em Portugal e morreu na China (Macau é China). O intelectual que leva Coimbra onde estudou, para a China e aprende cantonês e os modelos culturais chineses. O poeta que estudou direito como todos os outros intelectuais da viragem do século XX e que vai ser advogado em Macau. O tipo que colecionava porcelanas e pinturas chinesas. Que escrevia inspirado na estética poética tradicional chinesa e que inaugura o modernismo em português. Compôs poemas modernos sem os escrever, memorizava os textos e dizia-os na tradição confucionista. Passou a sua curta vida a fazer e a memorizar poemas, a trabalhar como advogado, a fumar ópio, a passear os cães e a fazer filhos. Deixou uma marca do caraças na literatura do século XX com o livro Clepsidra, que os amigos editaram e ainda hoje é objeto de estudo e de teses. Quem melhor que o Camilo Pessanha para ser o símbolo da lusitaniedade no oriente???

Daí o meu espanto sobre o vazio de Pessanha em Macau.

Acontece, e isso aprendi eu sem que me ensinassem, que o Dr. Pessanha fez inimigos por aqui na colónia de Macau.

Em particular, cultivou inimizades entre as elites locais. Os portugueses em Macau, que não gostaram de ver o Dr. Pessanha a defender chineses contra os colonos portugueses... Ninguém lhe perdoou essa ousadia de querer considerar os chineses como iguais. Nem essa nem as outras que chocaram a sociedade colonial e conservadora do princípio do século XX. Camilo Pessanha, vestia-se à chinês, vivia com uma chinesa, tinha filhos que educava como chineses e sobretudo trazia a génese de ideias republicanas que difundia no liceu onde dava aulas.

Os defensores dos bons costumes não lhe perdoaram. Arranjaram maneira de o despedir do liceu e de acabar com a sua carreira como advogado. O próprio Camilo, com o seu vício de se encharcar de ópio, também facilitou a coisa. Vendeu a coleção de porcelanas para alimentar os filhos e o vício. Morreu tuberculoso. O sogro, que nunca gostou dele, criou-lhe os filhos. A viúva substituiu-o por um comerciante. Os outros portugueses de Macau lamentaram cinicamente e aliviados disseram que nunca devia ter vindo.

A todos interessa apagar a memória dos passos do Camilo.

Passei mais uns dias em Macau em companhia do seu espetro.

Comi e bebi bem em Macau, mais do que o necessário.

Perdi-me várias vezes no labirinto das ruas e gostei de me perder. Numa manhã de nevoeiro, deixei Macau e entrei pela China de regresso à Europa. Antes de sair, vi escrito em letras grandes numa solene placa de pedra que ocupava toda uma parede: A PÁTRIA HONRAE QUE A PÁTRIA VOS CONTEMPLA.

E eu, que metade de mim é sempre do contra e a outra metade nunca está a favor, agoniei-me com a hipocrisia posta na pedra. Senti vergonha da pátria que apagou a memória do Pessanha. Lembro-me de ter pensado naquele momento que, se tivesse dinheiro, tempo e sete vidas como os gatos, gastaria uma dessas vidas para ali ficar a encher-me de ópio num bordel esconso, quis ficar por ali, eternamente a planar e a compor poemas sobre amores com olhos em bico. Só para desonrar a pátria que nos pariu contemplados!



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