sábado, 11 de janeiro de 2020

VINTE-VINTE, de Fernando Teixeira















Decorre a segunda semana deste novo ano que muitos, certamente, imitando a terminologia dos povos anglo-saxónicos, designarão de vinte-vinte. Depois de termos desejado, repetidamente, um Feliz Ano Novo a quantos nos merecem esses votos, eis que esse ano entrou no calendário e nas nossas vidas.

Ano 2020. Novo nas unidades, recomeçando do zero, novo nas dezenas. Entra uma nova década, num milénio a dar ainda os primeiros passos. Um milénio cheio de incertezas, no país e no mundo.

Mais do que um ano mais, desejamos que este seja realmente um novo ano, diferente. Novo, na alimentação da esperança de que novas ideias e novas atitudes, alicerçadas numa consciência renovada, possam colmatar comportamentos antigos, gastos, puídos. Novo, para que nesta transição anual sonhemos com uma sociedade mais justa, mais próspera. Novo, para desejar que os poderes decisores, sejam eles quais forem, tenham uma visão de futuro para o país e pelo progresso e bem-estar dos cidadãos, em vez de apenas para os seus interesses corporativos.

Não obstante, não será fácil. Não o temos visto, década após década. Diziam que iríamos estar no pelotão da frente da Europa, lembram-se? Em alguns aspectos, sim, noutros nem tanto. Mesmo o progresso verificado, em vários campos, parece que só acontece tendo em contrapartida o benefício e lucro de alguns grupos, empresas, lobbies e indivíduos, para lhes dar mais força, para lhes aumentar o poder e a influência. Fica de fora, o cidadão comum. Os métodos e os procedimentos levantam dúvidas, as decisões raramente suscitam consenso e as leis têm alçapões. Não é assim que chegamos lá!

Desfraldam-se bandeiras sobre o Portugal Tecnológico, o Portugal das Web Summit’s, das conferências e seminários disto e daquilo, ninho de startup’s, um país cada vez com mais restaurantes e chef’s detentores de estrelas Michelin… Acenamos com os melhores CEO’s, vendemos empresas de sucesso, sonhos e ilusões. Vaidades…

Do outro lado da vida, há uma imensa mancha de população que preferiria que Portugal tivesse antes uma Justiça em que todos fossem iguais perante a lei, que Portugal tivesse um Sistema Nacional de Saúde sem os problemas conhecidos, que Portugal tivesse um Ensino que cativasse os nossos alunos e reconhecesse a importância dos seus professores. Uma população desejosa de que Portugal fosse um país onde as pessoas auferissem um salário que dignifique o seu trabalho, onde cada um sentisse que pode evoluir e concretizar os seus projectos de vida; um país onde o mérito seja valorizado ao invés de tantos se verem aprisionados por uma política de baixos salários que sufoca não só a economia, mas também as vontades; um país com melhor distribuição de riqueza, que recuperasse a dimensão e a força da sua classe média, enfraquecida na última década, em vez de ser ainda um país com uma percentagem grande demais de portugueses no limiar da pobreza, contrastando com a opulência de quem aufere vencimentos absurdamente elevados.

Oxalá a década que agora se inicia seja o princípio de uma nova era, na qual se dêem passos certeiros no combate à desonestidade, à corrupção, aos esquemas ardilosos, aos jogos de influência, ao compadrio, à politiquice sem nexo, aos desmandos dos dinheiros públicos, a tudo o que mina um país que tem tudo para ser um dos melhores do mundo, assim tivéssemos uma classe dirigente impoluta e com uma visão clara para colocar Portugal, e os portugueses, definitivamente no rumo de um efectivo progresso e bem-estar social.

Oxalá, quando chegarmos ao ano vinte-trinta, não concluamos que se perdeu uma década mais!


O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

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