quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

NOTURNO ARCO-ÍRIS – ALHINHOS CONTRA OS VAMPIROS, de Helder Menor
















Aqui há dias revi-a.

A Alhinhos, como era secretamente conhecida em alguns círculos fechados.

Está uma senhora com quase cinquenta anos, de bem com a vida. Já não é gótica, está casada com um senhor que é engenheiro civil e trabalha nas finanças, numa pequena cidade de província.

Contou-me uma amiga comum.

Longe vão os tempos das saias pretas e dos cultos satânicos. Provavelmente enterradas nos cemitérios da memória as noites loucas em que nos conhecemos. Limitámo-nos a sorrir um para o outro e a um distante “tudo bem”.

Mas eu lembro-me. Aconteceu nos anos noventa. Foi numa noite de semana, num dos Novembros mais chuvosos de que tenho memória. Estava com um grande e inseparável amigo no bar do costume. Éramos quase irmãos de sangue e de armas. Não sei porque bebíamos naquela noite, se para festejar glórias efémeras, se para afogar mágoas passageiras. Teríamos ambos entre os vinte e cinco e os trinta anos, éramos ambos divorciados, adúlteros e com tendência para beber demais e viver de mais.

Ambos encostados ao balcão do bar discutíamos sobre qualquer coisa. O que quer que fosse que pudéssemos disputar, porque a amizade entre nós os dois era feita de discordâncias e disputas.

Atrás do balcão, estava ela, a vender gelo com whisky. Ia dando conversa. 

O bar ia ficando vazio e ela lá de cima do pedestal dos saltos altos, deu a entender que estaria disposta a adotar um de nós para uma noite de amor no banco de trás do carro. Falo-vos de um tempo remoto em que se podia fumar em todos os bares. O ar cheirava a tabaco, a bebidas, a chuva e a um outro cheiro conhecido que naquele momento, não consegui identificar. Ela era nova na terra e procurava um cicerone que lhe mostrasse os encantos regionais.

Não era feia. Ainda hoje não é feia. Com uma atitude que balançava entre a barbie e a intelectual tinha encanto. Macrobiótica, esotérica e bailarina. De estética e gostos góticos. Tinha uns olhos escuros pintados de preto que brilhavam com alguma graça. Chamava-se a si mesma Bruxinha ou Vampira. Branca, talvez demasiado branca, magra com as pernas compridas e as maminhas pequenas que cabiam em mãos pequenas. Tinha o cabelo de cor extravagante que lhe dava alguma graça apesar do visual monocromático no preto. 

O processo de engate estava já adiantado quando ela se decidiu... Naquela noite, segurou-me nas mãos por cima do balcão, ia falando de íncubos enquanto me massajava a linha da vida com o indicador direito. O meu amigo percebeu, despediu-se e saiu. 

O bar finalmente fechou, saímos os dois para a rua debaixo da chuva-molha-parvos e entrámos no carro dela. Era uma carrinha Renault 4 L amarela que cheirava a borracha e cigarros misturados com perfume. Acima de todos estes odores cheirava a alho. Já no bar me tinha cheirado a alho, mas não tinha identificado o aroma... agora não tinha como ignorar.

Sentado no lugar do morto, reparei que em cima do tabeliê havia uma cabeça de alhos. Meio a brincar perguntei-lhe:

– Então, tens aqui estes alhinhos é para aromatizar o carro?

– Não, respondeu, é para proteção esotérica. Evita vibrações pesadas, afasta espetros de baixa energia e mantém os vampiros espirituais à distância. Além disso, é muito bom para a saúde. Tomo sempre duas cabeças de alho antes das refeições - É um antioxidante natural fortíssimo e excelente tónico em geral. Nunca me constipo e sou super saudável!!!!

Vendo onde estava metido, fiz o que fazem os grandes exércitos quando avançam sobre terreno pantanoso: recuei...

Abri a boca como se tivesse muito sono e disse:

– Podes levar-me a casa? São quase três da manhã! Tou super cansado e amanhã tenho de estar muito cedo em Lisboa.

Ela ficou visivelmente desiludida, mas manteve o sorriso. A conversa foi agradável e durou cinco minutos até à porta da casa onde me deixou. Beijinhos na cara, amigos como dantes.

Passado uns dois ou três dias, voltei a encontrar o meu amigo no mesmo bar de sempre. Sentámo-nos os dois ao balcão a beber e a falar. A empregada, meio fria comigo e desiludida com a noite anterior, não teve indecisões e escolheu imediatamente o meu amigo. Eu ainda o avisei:

-        Vê lá se não te cheira a alho...

Satisfeito com a vida e celebrando a amizade, respondeu-me gingão e gabarolas:

– A mim cheira-me é ao desejo que corre nas entranhas daquela senhora, desejo e curiosidade de conhecer um verdadeiro homem, e eu estou disposto a satisfazer-lhe ambos, o desejo e a curiosidade!!!

Rimos-nos juntos e, nessa noite, fui eu que me despedi e desapareci.

Passaram dois ou três dias sem que nos encontrássemos.

Quando nos revimos, o meu amigo estava com cara de caso.

– Que cara é essa, o que aconteceu? Então a Alhinhos? Tá boa?

  Aconteceu que a tua amiga Alhinhos é um caso clínico. Primeiro é o cheiro a alho que tresanda... depois quis ir parar o carro atrás do muro do cemitério. Ok, fiz-lhe a vontade e fui... A seguir dizia que a lua cheia a deixava tão excitada que sentia que precisava de morder... Depois, depois... olha... Depois daquela noite acordei com as partes sensíveis que parecia que estavam em brasa... a arder como se tivesse uma queimadura... a sério!!! Tive que ir ao médico e tudo... Nunca me tinha acontecido tal coisa!!! Nunca mais!!! Só conheces psicopatas pá!!!

O caso foi sério e não é para rir!!!

E isto são factos. O rapaz foi ao dermatologista, que lhe receitou uma pomadinha para passar pelas partes. Inclusivamente teve de fazer análises. Ao princípio, o médico achou que era alergia a uma determinada marca de preservativos, mas depois de lhe fazerem os testes todos, percebeu-se que não era dos preservativos... aquilo era alergia ao alho....

Precisamente.

A rapariga tinha tal concentração de alho na saliva que por trocaram uns beijinhos mais íntimos o meu pobre amigo ficou com a masculinidade inflamada.

Não consigo deixar de pensar que para poder trabalhar nas finanças, num serviço de vampirismo de estado, um dos requisitos, foi ter deixado definitivamente o consumo desenfreado de alho...






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