quinta-feira, 19 de setembro de 2019

NOCTURNO ARCO-ÍRIS: O PRIMEIRO DIA, de Helder Menor
















Para ela, os primeiros dias eram sempre iguais. Era sempre a mesma sensação de pertencer a outro lado. O primeiro dia e os seguintes, ou melhor as primeiras duas semanas, eram para ela sempre uma confusão.

Estava na secundária da Quarteira e seguia direita à sala de professores que era no primeiro andar da C+S de Valongo.

Quando foi colocada aqui não lhe pareceu diferente. Uma antiga escola industrial construída durante o estado novo, com remodelações periódicas em função do calendário eleitoral. Por duas ou três vezes, virou à esquerda, percorreu o corredor até ao fim e teve de voltar para trás, porque não tinha saída e as escadas ao fundo do corredor eram na última escola onde esteve colocada. 

Foi por isso que não ligou às contas quando percebeu que tinha um aluno a mais na sala ou a menos no livro de ponto. Vinte e oito alunos no livro e vinte e nove cabeças que ela contou.

Sempre uma confusão.

Fez aquela primeira chamada e todos responderam. Ou quase todos, que nos primeiros dias há sempre alunos recolocados e também eles deslocados.

Andam sempre todos deslocados. Apenas as contínuas, meia dúzia de professores do quadro e os repetentes crónicos parecem devidamente arrumados e parte da mobília.

Foi logo no primeiro dia dela naquela escola, que reparou nele. 

Ela veio para dar biologia aos nonos, décimos e décimos-primeiros. Ele apareceu-lhe na aula do décimo, com roupas meio datadas dos anos oitenta e, ao contrário dos outros alunos, na mão não trazia um telemóvel mas sim uma bola de basquete. Entrou pálido a cochear do pé direito, afastou a cadeira para se sentar na última fila encostado à janela e soprou o tédio crónico dos dezasseis anos do lábio de baixo diretamente para a franja. Acompanhou o sopro com um inclinar da cabeça para trás e manteve-se ausente enquanto ela explicava o funcionamento das aulas e tentava aferir a dimensão da ignorância dos alunos.

Nesse dia não o voltou a ver.

Nem no dia seguinte.

As contas dos alunos no livro de ponto foram-se acertando e os pés dela foram aprendendo o mapa do lugar.

Depois voltou vê-lo. Trazia a mesma roupa. E a bola de basquete a bater no chão e a subir para a palma da mão como um animal amestrado. Seguia a cochear na direção de um jardim com árvores numa espécie de pátio interior.

Cruzaram-se num corredor infinito com portas que dão para salas de aula dos dois lados. Ela ainda abriu a boca para lhe perguntar porque é que ele tinha faltado à aula dela... mas como ele não fez intenção de a saudar, ela fingiu que não o viu e ficou a ouvi-lo a afastar-se com o seu passo descalibrado ao ritmo das batidas da bola no chão.

Já na segunda semana, seria uma quarta, ela chegou cedo à escola e foi para a sala onde daria a primeira aula organizar as revisões. Ele já estava na sala, sentado ao fundo, encostado à janela e olhando para o jardim, ausente. Ainda não eram sete e meia.

Calado e pálido não lhe respondeu ao bom-dia.

Ela foi ter com ele e confrontou-o.

- Para já bom-dia, depois, não são horas para estares na sala, terceiro isto não é um armazém de equipamentos desportivos mas sim uma sala de biologia e, finalmente, para onde estás a olhar tão distraído que nem me viste chegar?

Com uma voz cansada, respondeu.

- Estou a ver o campo de basquete.

- E onde é que estás a ver o campo de basquete? Eu só vejo flores e árvores...Vais jogar? Estás melhor do pé, reparei que cocheavas. O que te aconteceu ao pé?

- Foi uma entorse. A disputar um ressalto, caí mal, fiz uma entorse no pé direito e um traumatismo craneano que me matou.

- Que quê???

Uma contínua velha e pequenina entrou na sala de aula. Também ela sem dizer bom-dia.

- A professora também o consegue ver, não é?

A professora de biologia virou-se para a funcionária e, por instantes, esqueceu a estranheza da resposta do adolescente.

- Ver quem?

- O Jordan, o miúdo que anda com a bola de basquete...

Ela ia responder que não estava a entender a conversa, mas foi nesse preciso momento que o adolescente com que tinha estado a falar se desvaneceu através da parede na direção do jardim.

A professora ficou lívida.

A contínua continuou.

- Foi logo no primeiro ou segundo ano que vim para esta escola. Em 87 ou 88... há mais de trinta anos. Foi uma tragédia. O miúdo, acho, que era o Zé Manel, mas todos o chamavam de Jordan, caiu no campo de basquete e morreu logo. Falou-se de droga e tudo, veio nos jornais, mas não foi nada disso, o miúdo era um atleta. Foi um acidente. Um horrível acidente. O diretor depois no ano seguinte mandou fazer obras e o campo de basquete mudou-se lá para baixo. Antigamente era ali mesmo onde está aquele jardim e aquelas árvores. A professora consegue vê-lo, consegue ver o miúdo, não é?

Sem saber o que responder, nem fórmulas, nem cálculos, nem experiências, nem roldanas disponíveis para resolver o problema, a professora calou-se evasiva.

-Não sei do que está a falar, mas deve ter sido uma tragédia.

A funcionária não pressionou mais:

- Não se preocupe professora, se viu, vai deixar de ver. E também lhe digo que vai ficar aqui no quadro desta escola, porque ele só se mostra a quem vem para ficar.

...

A funcionária de ação educativa tinha razão.

A professora de biologia passou ao quadro. Está agora vinculanda naquela escola. Com o tempo deixou de estranhar o edifício e os primeiros dias passaram a ser só mais um primeiro dia. Já se habituou às rotinas do local. Sempre que as suas aulas se tornam cinzentas ou quando o tempo convida, manda os alunos irem recolher formas simples de vida junto às árvores do lado de lá da janela.

Avisa-os:

- Aproveitem a vida que, como podem constatar, é um sistema de grande fragilidade!

Eles saem todos de rompante sem entender pêva de biologia.

Ela então senta-se e fica a ver dasabrochar das paixões entre os alunos, os beijos, os pássaros e os insectos. Às vezes, ouve o soar de uma bola de basquete a bater na parede, um bater ritmado que sabe que mais ninguém ouve mas que a conforta.


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