sexta-feira, 27 de setembro de 2019

ENTREVISTA | ANABELA NATÁRIO


MBC - “Falar de crime também é uma maneira de historiar o país, além de passar testemunhos de outras épocas, de outras índoles.
Na medida em que poucas pessoas conheciam os casos descritos no livro onde são retratados acontecimentos reais de assassinas, falsificadoras e ladras portuguesas dos últimos três séculos gostávamos de saber o motivo pelo qual achou importante escrever um livro sobre estas mulheres?
AN - Eu gosto de História, de jornalismo, da problemática feminina e da criminologia. Na minha “missão” de repórter enviada ao passado, já descrevi a vida de outras 177 mulheres, em seis livros intitulados Portuguesas com História. Não eram criminosas, mas nem todas foram heroínas do seu tempo. Muito diferentes são, porém, estas 23 mulheres, todavia, também com elas quis dar a conhecer personalidades e vidas noutros tempos… é precisamente como digo na introdução de Mulheres Fora da Lei, contar histórias de crime é também fazer a História de um país. Em especial, porque tenho a preocupação de fazer enquadramentos, de dar testemunhos das épocas descritas, de revelar jornais. E retrato criminosas, como também agentes da justiça, políticas, locais…. É bom saber de tudo, a censura é péssima a todos os níveis, muito mais na aquisição do conhecimento. Por outro lado, o facto de as mulheres cometerem menos crimes do que os homens não significa que não os pratiquem. Além disso, é necessário recordar o passado para acautelar o futuro.

MBC - Na sua perspectiva o que levou estas mulheres a tornarem-se criminosas? A época em que viviam? O contexto sócio cultural? Ou simplesmente uma incapacidade de sentir empatia e amor?
AN - Não tenho certezas. No caso das assassinas de maridos, embora não haja desculpa para o ato, parece-me que elas não viam outra saída para um casamento doloroso (quando sujeitas a maus-tratos, o que era a “normalidade”) ou para a falta de amor senão o livrarem-se dos maridos tirando-lhes a vida. Não havia divórcio, a separação era um passo dificílimo para uma mulher e amores fora do casamento só eram permitidos aos homens. Quanto às gatunas, a maioria vivia na miséria, num meio miserável… exploradas por homens (uma boa parte), portanto, quando a pobreza social é desta ordem as saídas para a sobrevivência são escassas. Outras houve, claro, que gostavam do que faziam, ou seja, de se dedicarem ao crime. É assim a história da existência humana, desde os primórdios. Há casos e casos, mulheres e mulheres, homens e homens…

MBC - Quando fez a sua investigação encontrou certamente informação escondida nos arquivos que consultou que não tenha colocado no livro, e que de alguma forma possam ficar para uma continuação de Mulheres Fora da Lei?
AN - Sim, aliás, os casos retratados em Mulheres Fora da Lei já saíram do meu arquivo, que é resultado de uma pesquisa mais alargada sobre crime (e outros factos históricos) que faço há anos. Daí que tenha muitas mais histórias na manga com personagens femininas e masculinas. Em breve, espero que ainda este ano, irão surgir outras histórias deste já bem recheado meu arquivo.

MBC - Confesso-lhe que de todos os casos retratados no livro aqueles que mais
me impressionaram foram o da Luísa de Jesus (assassina em série) e a de Maria do Carmo (a filicida), talvez por se tratarem de casos envolvendo bebés. Na sua opinião qual foi a reação das pessoas a estes dois casos em particular.
AN - Os crimes de Luísa de Jesus, rapariga de 23 anos, impressionam sempre. Não temos registo em Portugal de um crime deste calibre… ela foi condenada por ter assassinado 28 crianças, bebés que ia buscar à roda dos expostos de Coimbra, mas terá matado mais de 30… para ficar com os 600 réis, o berço e os 66 centímetros de pano de lã felpudo que a Misericórdia dava às amas, por cada bebé que levavam para criar ou para dar a outras famílias que dele cuidassem. Ninguém fica indiferente a um caso como este, mesmo sabendo que tudo aconteceu num tempo longínquo; são crimes cometidos a sangue frio, sem remorso. A Maria do Carmo é diferente, no perfil, nas motivações… a única semelhança é a idades… julgo que foi um ato de desespero matar o filho de um mês. Estamos a falar dos últimos anos do século XIX, as mulheres não tinham direitos e as criadas de servir muito menos. Quando, numa casa, havia um roubo, por exemplo, a criada era a primeira a ser presa, mesmo que nada indicasse que fora ela. Se uma mulher engravidava sem ser casada tratava-se de um atentado social, se fosse de “boas famílias” ainda arranjava maneira de se livrar do estigma, mas sendo criada… Maria do Carmo viera há pouso meses da província, onde um soldado lhe prometera casamento para a namorar, contudo, quando ela engravidou nunca mais ninguém o viu. Quando a barriga se começou a fazer notar, deixou a casa do militar onde trabalhava, desesperada… Já no hospital, uma outra companheira de enfermaria disse-lhe que abandonasse a criança numa escada, prática comum, ou que a entregasse na misericórdia de Lisboa. Ali, embora percebessem que ela não tinha condições para o criar, disseram-lhe que não podiam aceitar o bebé, por uma questão burocrática: este tinha sido concebido em Pombal, portanto, fora do concelho de Lisboa. Transtornada, sem saber o que fazer, foi da misericórdia ao jardim do Campo Grande, a pé, com a criança nos braços; lá chegada, escolheu um banco, junto ao lago, estrangulou o filho, e esteve horas a fio, sentada, com o bebé morto nos braços, até anoitecer, até o pousar com cuidado no chão, num local onde era visível... Falamos de uma altura em que o aborto é proibido, extremamente perigoso e, por isso, pouco praticado. Quase todos os dias, surgem nos jornais notícias sobre o aparecimento de um feto, uma suspeita de infanticídio, uma criança abandonada. Maria do Carmo disse que lhe passou uma nuvem pela cabeça… Qualquer destes casos, o de Luísa de Jesus e o do Maria do Carmo, impressionam qualquer pessoa, julgo eu. Para mais, é tudo real, em nenhuma das histórias que conto há ficção, mesmo quando digo que está a chover ou a fazer sol.

MBC - Alguns leitores poderão pensar que os castigos eram muito severos “cortadas e separadas as cabeças dos corpos já mortos e levadas e postas no lugar do delito” ou até que alguns eram muito leves “oito anos de prisão celular, seguida de doze anos de degredo”, tendo esta assassina ainda vivido até aos 86 anos. Se lhe pedisse a sua opinião sobre os castigos em geral qual seria a sua resposta.
AN - Eu sou contra a pena de morte, portanto, até me custa pensar que além desse castigo, os juízes ainda sentenciassem, por exemplo, que as cabeças dos criminosos e criminosas fossem penduradas no local do crime… uma imagem que nunca pensei poder associar à História de Portugal. Também não me parece que as penas de prisão fossem leves… basta pensarmos como eram horríveis as condições das cadeias e a dureza da vida em áfrica, no entanto, eram assim os castigos no passado, em épocas em que me parece que até a justiça era pouco recomendável. Veja-se o caso de Isabel Clesse que foi acusada de tentativa de homicídio, o que a livraria da forca, mas como tinha um amante, como “vivia publica e escandalosamente amancebada”, coisa imperdoável a uma mulher, foi condenada à morte e enforcada. Ao apreciarmos sentenças dos séculos passados nota-se o procedimento discricionário… atualmente, também há razões para queixas, mas estamos muito melhores. Apesar de tudo, o país está muito melhor, o mundo está muito melhor.

MBC - Pensa mesmo que “só o facto de já estarem todas enterradas no passado nos deixa alguma tranquilidade”?
AN - Bem, é uma forma de dizer que as criminosas retratadas já não andam por aí, já não podem fazer mal a ninguém. Por isso mesmo, digo alguma tranquilidade. Só alguma, porque o crime, independentemente da altura em que é praticado, seja no passado ou no presente, é algo que incomoda. Há por aí muitas substitutas… Uma sociedade sem crime não existe, infelizmente foi assim ontem é assim hoje, todavia, temos sempre a ilusão de que o conseguiremos erradicar combatendo-o, e ainda bem que temos essa esperança.

MBC - Se escrevesse uma continuação de Mulheres Fora da Lei já neste século pensa que poderia encontrar casos semelhantes, com os mesmos contornos ou as mulheres deste século serão mais “hábeis” nas suas fazes mais negras?
AN - As mulheres continuam a cometer menos crimes do que os homens, no entanto muitas continuam a fazê-lo. Mulheres que assassinam, que roubam, que vigarizam, chantageiam… continuam a existir, algumas com outros requintes, praticando o crime de forma mais refinada. E até em maior número… é o preço que se paga pelo ganho de maior liberdade de movimentos, pela emancipação de um sexo continuamente subjugado, mesmo quando se fala em crime.



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