quinta-feira, 26 de setembro de 2019

DE ONDE NUNCA SAÍ - ADUANA DE BADAJOZ, de Helder Menor















Em criança, imaginava que as fronteiras fossem riscos no chão.
Imaginava as fronteiras desenhadas a giz. Ou melhor: feitas com tinta branca grossa e com revelo, como os traços contínuos das estradas.
Lembro-me de ser muito garoto e ir a Badajoz. Nessas viagens, percebi que fronteira queria dizer tensão legal latente e potencial confronto com as autoridades. Era puto, nos meus cinco ou seis anos, mas lembro-me bem.

Ao chegar à fronteira, o carro parava numa fila. Na altura, eram os guardas-fiscais do lado de cá e os carabineiros do lado de lá. Entre as fardas, homens armados e símbolos nacionais estava eu com os adultos que me acompanhavam. Depois vinham os guardas pedir o passaporte. As declarações assinadas para o miúdo que era eu poder viajar. Mais os documentos do carro e outros papéis.
Vinha então a pergunta, primeiro em português, depois em castelhano:
-        Transportam, café, bebidas alcoólicas ou armas?
Os adultos faziam um ar sério, diziam que não e mostravam as folhas guardadas em pastas e documentos tiradas do bolso do casaco. O guarda, com ar de caso, fazia o seu papel. Inspecionava a documentação, depois olhava sério para cada um de nós e outra vez para a documentação.
Às vezes, mandava abrir as portas e revistava o carro. O interior, debaixo dos bancos, a mala, o motor e verificava papéis e números. Lembro-me de um tipo mais zeloso que uma das vezes até quis ver o cesto onde levávamos o farnel.
Quando a inspeção acabava, lá nos mandavam seguir e passavam a chatear as pessoas do carro que vinha atrás.
Parecia que era um favor que nos faziam deixar-nos passar aquela cancela.

A seguir vinha a aduana. Caso não saibam, aduana é como os carabineiros chamam à fronteira. Guardas como os do lado de cá, vestidos de igual modo, com um chapéu diferente e ridículo e modos igualmente rudes. Faziam exatamente a mesma coisa que em Portugal a falarem uma língua que, sendo distinta, se compreendia perfeitamente. Voltavam a pedir a mesma papelada. Se não fosse o tédio burocrático próprio das fardas, até podia ser um jogo.
Devo dizer que, aquilo que mais me impressionava nos carabineiros, além do chapéu à Napoleão, eram as espingardas. Se do lado português os guardas traziam uma pistola à cintura dentro dum coldre, do lado espanhol traziam uma enorme espingarda ao ombro.
O carabineiro de serviço inspecionava papelada. Licenças e documentos. Depois eram carimbados os papéis. Das pessoas e do carro. Demoravam eternidades a comparar os passaportes com as caras dos seus proprietários.

Era nesta fase que eu inventava a vontade de fazer chichi. Apenas um higiénico subterfúgio para ir ver como era a fronteira do lado espanhol.
Foi numa dessas viagens ao urinol da aduana que vi os cartazes com as caras dos bascos procurados por terrorismo. Fiquei pasmado a olhar para as pessoas naquelas fotografias. As imagens eram de pessoas fotografadas nas esquadras, horas ou minutos depois de serem presas. Os carabineiros passavam com papéis nas mãos. Um dos adultos que vinha comigo esforçou-se para me tirar dali. E eu a fazer perguntas. O espanto, o medo e a raiva nos meus cinco, seis anos. Já nessa altura era subversivo.
Nos anos 70, nem os portugueses nem os espanhóis estavam habituados à democracia.

Terá sido aí comecei a aprender línguas sem aprender gramática. Oralidade de fronteiras, da praia e de balcão de taberna.
A primeira frase que aprendi numa língua que não o português, foi-me ensinada pelo meu avô paterno. O meu avô, que foi ferroviário e que, com frequência viajava para Espanha.
Apesar de não ser assunto discutido em família, lembro-me que o meu avô, de vez em quando fazia algumas compras em Espanha, que trazia para amigos e conhecidos em Portugal. Pequeno contrabando dirão os mais legalistas. Coisas sem importância. Cigarros, caramelos, rádios de pilhas e ventoinhas. Às vezes ia com ele nas suas viagens, coisa que muito gosto me dava.
A primeira coisa que aprendi a dizer em castelhano foi:
-- Míralo usted.

Aprendi e memorizei o Miralóstê quase como uma palavra mágica para esconjurar carabineiros.
Podia ser que um homem, mesmo que tivesse apenas seis anos, impressionasse o carabineiro quando saltava do colo do avô e mostrava o saco do lanche a dizer: miralóstê. Podia ser que o carabineiro, surpreendido com a prontidão do garoto, percebendo que nada tínhamos a esconder, nem sequer se desse ao trabalho de espreitar. Que nos mandasse seguir. Que deixasse passar os caramelos que vinham arrumados debaixo das sandes de chouriço. Podia ser que por milagre da palavra dita, fosse possível seguir livre de perigos.
Um simples miralóstê permitia continuar passando para sempre fronteiras e aduanas embalado pelo comboio numa viagem sem fim. Tudo para que a minha cara não aparecesse naqueles cartazes do “se busca”. Ou a cara do meu pai, que também tinha barba e cabelo comprido como os bascos. Ou a cara da minha mãe, também ela de cabelos pretos encaracolados como as mulheres fotografadas nas esquadras.

Já tinha aí uns oito ou nove anos quando percebi que as fronteiras eram uma invenção dos adultos. Tipo lobo-mau ou bruxa da branca de neve, mas com homens armados e cartazes a tornar o pesadelo real. A partir dessa altura, sempre que nos aproximávamos de uma fronteira, comecei a sugerir sair da estrada e ir pelos campos. Só naquela. Sair da estrada e ir pelo mato, evitando as aduanas e os encontros nefastos dos pesadelos com a minha família nos cartazes dos procurados. Claro que nunca ninguém levou a sério a minha sugestão e continuei a passar as fronteiras com medo. Até que depois, durante a minha adolescência, a Europa ficou sem fronteiras. Ainda bem. Os cartazes dos procurados desapareceram dos meus sonhos durante uns tempos.

Em adulto, fora da Europa voltei a deparar-me com os mesmos esquemas de fronteira que aprendi enquanto criança. Senti o mesmo medo absurdo da fronteira e dos cartazes dos procurados.
Puta que pariu os riscos no chão, as aduanas e a documentação nacional.

Acredito que vai chegar o dia em que as crianças só vão aprender o que foram as fronteiras nas aulas de história. Nessa altura, os putos de oito anos vão sorrir da ingenuidade que foi os adultos acreditarem em riscos imaginários no chão. Tal como os putos de hoje sorriem ao saber que os marinheiros de quinhentos acreditavam em sereias. Acredito num dia em que os cartazes de procurados deixarão de povoar os pesadelos das crianças, um dia em que não se façam mais buscas, mas em que todos se encontrem.


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