segunda-feira, 30 de setembro de 2019

FAMÍLIA IDEAL, de MBarreto Condado















Dia Um

Todas as famílias têm os seus esqueletos. Estejam eles escondidos nos armários, esquecidos nos fundos falsos de velhas caixas. Fotografias que não passam de borrões. Um velho trapo, que se desfaz ao mínimo toque, mas que relembra um momento. Uma folha ressequida, de um passeio especial num parque de cujo nome já não nos lembramos e, que ainda marca a página de um livro. Recortes de revistas, de jornais. Areia da praia. Uma concha do mar. Uma pedra em forma de coração…. Porém, no fundo, todos, sem excepção, guardamos no único lugar seguro os nossos maiores segredos. Aqueles sobre os quais nunca falamos, seja por vergonha, receio ou simplesmente por serem só nossos. Guardamo-los em nós, algo que aprendemos a fazer em família!

Afinal a nossa família é a ideal.

Ensinaram-nos a acreditar, na Fada dos Dentes, no Pai Natal, no Menino Jesus, no Coelhinho da Páscoa. Em tudo que nos dizem! Porque afinal o que sabemos nós?

Infelizmente crescemos e os sonhos esbatem-se.

A Fada dos Dentes, passa a ser uma moeda debaixo da almofada. A impossibilidade de o Pai Natal descer com o seu saco através de um exaustor é notória. O menino Jesus acaba substituído por cuecas, meias e brinquedos em demasia e totalmente desnecessários. E pior do que não conseguir pôr ovos é o facto do Coelhinho da Páscoa não ser realmente de chocolate.

A nossa família ideal perde a sua credibilidade para as evidências, para os obstáculos diários com que nos confrontamos.

Chega o momento de lidarmos com o que temos e, alterarmos o que não gostamos.

Para os mais afortunados essa mudança começa cedo, para os mais distraídos acabará por chegar eventualmente.

Os nossos pais são os nossos heróis, os nossos avós as pessoas mais sábias, os nossos tios quem nos ampara quando os outros não estão presentes, os nossos primos são irmãos. Todos que nos rodeiam são família ainda que muitas das vezes não o sejam.

Dependemos deles quase tanto como do ar que respiramos, até ao dia em que crescemos e cada um como que por magia ganha uma nova personalidade. Tornamos-nos do dia para a noite em desconhecidos. É verdade que partilhamos o mesmo ADN, que fomos educados dentro dos mesmos princípios. Somos família e ao mesmo tempo não somos! As brincadeiras, as histórias, as festas que partilhávamos passam a ser momentos de tortura, como se um disco riscado continuasse a insistir na mesma nota. Mas, é no momento em que perdemos a base da nossa sustentação que mostramos a nossa verdadeira natureza.

Os avós partem deixando alguns dos seus segredos, conseguindo esconder a maioria por não terem quem os conheça e possa falar deles.

Os pais que aos nossos olhos eram perfeitos, demonstram as suas fragilidades.

Os tios simplesmente se afastam.

A maior parte dos primos passam de irmãos a filhos da …

É quando decidimos ter chegado o momento de mudar, criarmos as nossas próprias famílias numa derradeira tentativa de recriar os laços perdidos. Não desapontar quem ainda acredita em nós. Não importam os motivos, pode ser por amor, interesse, loucura, medo de ficar sós. Por tudo e por nada.

Se serão famílias ideais? Talvez seja pedir de mais!

Nos momentos em que julgamos já não ser possível voltar a acreditar, alguns conseguem encontrar esse elo, porém, os outros continuam manifestamente a procurar a tal família.

Criamos novas uniões, mas na realidade, não voltamos a acreditar em quem fomos ou no que nos unia. Toda a nossa postura muda. Com a idade tornamos-nos cépticos, irascíveis, individualistas, superiores, fingidos, orgulhosos, mostramos a nossa verdadeira face. Mas acima de tudo afastamos-nos cada vez mais uns dos outros até sermos meros desconhecidos.

Sem nunca desistirmos tentamos à nossa maneira construir o nosso caminho, pedra sobre pedra.

A família ideal passamos a ser nós, a sós ou acompanhados. Afinal quem melhor conhece as nossas necessidades, do que nós próprios?

Contudo, continuamos a questionar principalmente os nossos pais. A descobrir, a saber o que fazem, como o fazem, a ser bombardeados com informações sobre as quais dávamos tudo para não ter conhecimento.

A família ideal continua a ter os seus esqueletos. Já não estão escondidos, mas à vista de todos. Em bilhetes deixados propositadamente para serem lidos. Em fotografias rasgadas. Deitam-se fora as roupas velhas e compram-se novas. Pisamos as folhas ressequidas. Já não lemos, andamos demasiado ocupados com os telemóveis. Reciclamos revistas e jornais. Odiamos a areia da praia que se entranha nos fatos de banho. Esmagamos as conchas do mar ao caminhar. Atiramos as pedras para a água sem nos apercebermos que ainda mantêm a forma de coração….

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