quarta-feira, 25 de setembro de 2019

MAIS VALE TARDE…, de Fernando Teixeira















Sempre ouvi dizer “mais vale tarde do que nunca”. É algo em que quero continuar a acreditar, especialmente quando se trata de corrigir um erro, uma questão mal resolvida, uma coisa que não está bem. Por vezes, uma anormalidade tantas vezes é afirmada e repetida que passa a ser considerada, por muitos, a nova normalidade. Não comungo dessa linha de pensamento. Uma anormalidade não deixa de ser uma anormalidade, uma aberração é sempre uma aberração, um erro é um erro.

Serve este preâmbulo para tocar num assunto que me é caro e que me continua a incomodar, ainda que já muito falado, discutido, defendido pelos seus adeptos e vilipendiado pelos opositores: o Acordo Ortográfico de 1990.

Talvez fosse mais correcto dizer pseudo-Acordo – e com isto percebem já que me incluo nos opositores e que escrevo segundo a ortografia anterior ao AO90 –, uma vez que não foi ratificado por todos os países de língua oficial portuguesa, não tem consistência para conduzir a uma verdadeira “unificação” da ortografia e, não menos importante, sublinhe-se, nunca foi aceite pela generalidade da população, seja qual for o seu extracto social e competência literária ou académica.

Não vou dar exemplos, já gastos, do absurdo da maior parte das alterações impostas pelo AO90, da usurpação de regras ortográficas que faziam sentido, de incongruências e palavras cuja ortografia é facultativa, de palavras que estranhamos… Já todos conhecemos esses exemplos. Nem vou falar dos casos em que, mais do que unificar, o AO90 só contribuiu para aumentar a diversidade e a confusão, gerando novos erros que antes não existiam, quer na forma de escrever quer na forma de pronunciar as palavras alteradas.

Refira-se que o AO90, regulando apenas aspectos da ortografia (e mal), não incide no léxico, na sintaxe e na semântica, não contribuindo de modo algum para uma “língua comum unificada”, algo manifestamente impossível de atingir e que contrariaria o princípio da livre e diferenciada evolução da língua, nos diversos países que falam o Português.

O AO90 nunca foi discutido publicamente com seriedade. Foi uma norma imposta, desprezando a quase totalidade dos pareceres negativos de especialistas e entidades consultadas à época. E, principalmente, foi imposto desprezando a opinião do povo português que deveria ter tido a oportunidade de tomar uma posição sobre o assunto, na forma democrática de um Referendo. Afinal tratava-se, e trata-se, do pilar da nossa identidade, aquilo que sempre esteve em causa.

No meu entender, os professores de Português deveriam ter sido os primeiros a manifestar-se massivamente contra a aplicação do AO90 nas escolas. Deveriam ter estado na linha da frente para impedir a aplicação de uma ortografia que lesa a Língua Portuguesa e é um atentado à nossa memória como povo independente. Mas não o fizeram, reféns da tutela.

Ignorando opiniões e pareceres contrários ao AO90, os sucessivos governos e os deputados que constituem a Assembleia da República foram, e são, responsáveis pela situação criada e por manterem uma situação a todos os níveis incompreensível. Não dignificaram a democracia antes, não a dignificam agora, antes continuam a impor uma norma ortográfica que criou divisão nos portugueses, naquilo que nos devia unir. Em consequência, verifica-se a coexistência de um caos ortográfico em que, num mesmo país, uns escrevem ao abrigo do AO90, outros segundo a ortografia anterior e muitos, demasiados, escrevem misturando as regras das duas ortografias, numa proliferação de erros, frequentemente observada nos mais diversos meios de comunicação. Uma confusão instalada! E assim vai este país vivendo…

Eu, autor independente e cidadão livre como muitos outros, mantenho-me firme às minhas convicções e continuo a escrever os meus livros e a publicar artigos segundo a ortografia anterior ao AO90. Ainda acredito, e espero, que o bom senso venha a prevalecer!

Vale mais corrigir o erro tarde do que nunca… Mas já tardámos demasiado. Até quando?

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