sábado, 12 de agosto de 2017

OPINIÃO | De Livro em Livro | ANA KANDSMAR

Sempre dei livros aos meus filhos. Cedo, muito cedo, vários volumes de livros infantis, contos, Os Irmãos Grimm, Christian Andersen, Disney… Depois os juvenis; a História de Portugal; ciência, Civilizações Antigas; As Grandes Construções do Homem; mistérios e lendas; muita banda desenhada, Tintim, Asterix, Corto Maltese (o Rafael ficou fã), o maravilhoso conto de Marguerite Yourcenar: A Fuga de Wong-Fô, (ainda hoje choro quando o leio). Enfim, paredes e mais paredes forradas de livros e hoje posso dizer que só não os tenho na casa de banho. Por gosto e necessidade lá fomos coleccionando histórias de todos os tamanhos e para todos os gostos. Por necessidade, confesso: Eça, Camões, Camilo. Por gosto, Pessoa, Virgílio, Saramago, Lobo Antunes, Natália Correia, Florbela Espanca. Saltamos de livro em livro, de história em história como quem salta pocinhas e procura mergulhar nas profundezas do saber. Cá em casa lê-se de tudo e cresce-se com o que se lê. Aprendemos, sonhamos, emocionamo-nos, choramos e rimos.

Há 10 anos, o meu filho tinha apenas 11 e já sabia que nem toda a gente tem a sorte de acordar com o chilrear dos passarinhos ou com as buzinadelas dos carros que descem a avenida e se dirigem ao centro da cidade. Aos 11 anos ele já sabia que existem mulheres escondidas nas burkas, escondidas nas esquinas cinzeladas, por baixo dos néons em pedaços, mulheres que acordam todos os dias com o barulho ensurdecedor de bombas a rasgar o céu, o estrondo aterrorizador de edifícios que em menos de nada se transformam em escombros, rajadas de metralhadoras a substituir o bulício das ruas, gritos desesperados de pais que seguram os filhos mortos nos braços. Aos 11 anos o meu menino já sabia que nem todas as mulheres, nem todos os homens, nem todas as crianças deste mundo dormem à noite, imitando-o na sua cama quente e confortável. Ensinei-lhe que para muitos, as noites dão mais medo que sono, e que o medo nos pode transformar em zombies tacteando no escuro um remédio que nos cure as dores do corpo e da alma. Ensinei-lhe que enquanto dormimos, comemos, passeamos e amamos, há pessoas no mundo que caminham pelo deserto em que se transformaram cidades inteiras e não têm tempo para dormir, o que comer ou quem amar e que nas noites em que são zombies contemplam retalhos de rios onde corre mais sangue que água. Aos 11 anos o meu pequeno filho já sabia que havia uma África e um Médio Oriente dilacerados pelas guerras que aparecem nos intervalos dos mercados, “lembra-te filho, as guerras aparecem sempre nos intervalos dos mercados, nos intervalos das compras e das vendas, nos intervalos da acumulação de coisas que não valem as vidas que se acabam. Lembra-te: No Médio Oriente um bom ditador é o garante da estabilidade. “Sem um bom ditador, todo o Médio Oriente é um matadouro, filho. Religião, petróleo, armas, todos os pretextos são bons para fazer jorrar sangue”. Às vezes, onde há muitos sádicos é preciso haver um sádico ainda maior que encerre os outros em arame farpado.


Defendo-o ainda hoje: Sadam era o macho Alpha de uma matilha perigosa e sanguinária. E sobre isto, sobre tudo isto se pode aprender nos livros, e que felizes, afortunados que nós somos por não ser a vida a ensinar-nos. “Os vendilhões nunca se foram embora do templo, filho. Repara como apenas nisto concordaram Alá, Jeová e Cristo: Crescei e multiplicai-vos.” Para grande azar dos cristãos e até mesmo dos judeus, os muçulmanos são os únicos que seguem a advertência divina à risca. Há 10 anos, quando os meus filhos me perguntavam para onde iam as pessoas mortas, eu podia dizer-lhes que elas iam para dentro da estória de Wong Fô e que uma vez aconchegadinhas nas páginas, podiam finalmente dormir no interior de uma das suas telas. Porque nas telas de Wong Fô a beleza é tão intensa, que nada no mundo se lhes compara e só uma beleza assim é capaz de compensar uma vida inteira de sofrimento e de noites sem dormir. Podia, mas preferi sempre confrontá-los com a verdade. Os livros, por mais mágicos que sejam, revelam apenas a grande vontade do autor em embelezar este mundo. Não que o mundo não seja belo o quanto baste. Nós é que se calhar precisamos de extrair da leitura uma nova forma de o olharmos.













Ana Kandsmar

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