sexta-feira, 18 de agosto de 2017

OPINIÃO | Fruta que Sabe a Sol | MARGARIDA VERÍSSIMO

Em Portugal a fruta é deliciosa, sabe a sol, dizia-me uma amiga belga numa das suas várias visitas ao nosso país. Nunca tinha pensado no sabor da fruta nesses termos, mas adorei e pensando bem ela tem toda a razão. Temos tendência a não valorizar o que havemos como garantido e em Portugal o sol é garantido, já na Bélgica…

Graças ao grau de maturação proporcionado pelas muitas horas de sol, a fruta em Portugal tem um gosto muito especial e autêntico. Quem não tem o privilégio de a poder saborear diariamente sente bem o seu gosto especial e aprecia a nossa fruta quando tem o prazer de o fazer.

Apesar de termos fruta durante todo o ano é na primavera e verão que há mais variedade e em que ela sabe melhor, que sabe realmente a sol. E fruta a saber a sol é: no fim da primavera trincar um pêssego perfumado e suculento e o seu sumo escorrer pela boca e pelas mãos e ficarmos peganhentos de lamber as mãos antes de as lavarmos; é colocar de uma só vez na boca 5 ou 6 cerejas carnudas e negras e ir cuspindo os caroços e repetir o gesto uma e outra vez até acabar todas as cerejas do cesto e ficarmos com a língua preta; é nas férias de verão levar uma caixa com cubinhos de melão fresco para a praia e sentir a sua doçura salpicada por gotinhas salgadas de mar; é comer melancia num terraço ao pôr-do-sol; é devorar uma mão cheia de ameixas sumarentas e ter esperança que não faça mal; é sentir o aroma a maçãs verdes no pomar, apanhar uma, trincar e sentir o suco agridoce libertar-se da polpa crocante; é no fim do verão debicar uvas redondinhas, de vários tamanhos, de um cacho grande e negro, uvas de polpa suave e doce; é deixar-se envolver pelo morno, adocicado e seco perfume das figueiras e ficar de lábios colados enquanto o fruto se desfaz na boca e se absorve todo o seu açúcar; é também brindar com amigos ao fim do verão e comer as amoras e framboesas embebidas na sangria.

A minha amiga belga não chegou a verbalizar, mas vi na sua expressão de prazer deleitando-se com a salada que acompanhava o churrasco, que não é só a fruta que sabe a sol em Portugal. Também o manjericão, os coentros, orégãos, a hortelã, a alface e o tomate (na realidade o tomate é fruta), sabem a sol. Se juntarmos todos estes elementos numa salada, a que adicionamos cebola finamente cortada, temperada com sal marinho, azeite virgem e vinagre balsâmico e se a enriquecermos com bocadinhos de queijo fresco de cabra alimentada nos campos, conseguimos sentir o sabor dos raios de sol que pela manhã acariciam as plantas e as despertam da noite fresca, dos raios de sol escaldante do meio-dia que as enchem de vida e de energia e dos raios de sol que na serenidade preguiçosa do entardecer lhes prolongam a cor e o paladar.

E o vinho? Achará a minha amiga que o vinho em Portugal sabe a sol? Desconfio que sim, mas não me chegou a dizer…adormeceu.














Margarida Veríssimo


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