sábado, 24 de fevereiro de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | As nossas crianças estão seguras nas escolas? | ISABEL DE ALMEIDA

   Talvez por uma questão de mentalidade, cultura, modo de estar, ou por mera questão de tempo, coisa que o próprio tempo nos dirá, a realidade escolar Portuguesa ainda não se deparou com o clima generalizado de terror gratuito que é, certamente, um tiroteio em contexto escolar. Todavia, se percorrermos a actualidade noticiosa dos últimos anos, encontramos casos de violência bastante gravosos, que revestem a natureza de diversos exemplos de bullying (violência entre pares), recordo casos de espancamentos em grupo, gravados e divulgados nas redes sociais (fruto perverso do uso não normativo das novas tecnologias como forma de difusão de mensagens de exaltação da violência gratuita, quiçá como forma de afirmação identitária dos jovens, que escolhem o caminho errado para alcançar este fim).

   O bullying escolar é um fenómeno complexo, que vem sendo alvo de estudo, por exemplo, pela psicologia, e que em termos mais teóricos, prometemos analisar futuramente neste mesmo espaço, talvez numa série de artigos), mas é infelizmente bastante mais comum do que os casos cujos relatos nos chegam através da comunicação social, pois existem muitos outros, que por passarem mais despercebidos, por serem calados pelas vítimas (que tantas vezes optam pelo silêncio enredado em vergonha e medo neste como noutros contextos de violência), ou por serem desvalorizados pelas figuras de referência a quem caberia proteger ou promover a devida intervenção em casos de violência entre pares já em curso  (pais, professores, auxiliares de acção educativa, irmãos mais velhos, por exemplo), caem no esquecimento.

   A questão que aqui deixo à vossa reflexão é, precisamente, a de tentarmos perceber até que ponto as nossas crianças, em todos os níveis do sistema de ensino, se encontram seguras no respectivo contexto escolar. 

   Cada caso é um caso, mas a verdade é que as vítimas de violência escolar, mesmo quando não tiveram ainda a coragem de pedir ajuda a pais ou professores, dão sinais de instabilidade emocional que indiciam que algo não estará bem. Ansiedade, evitamento às aulas, possível somatização ( queixas físicas que resultam de forte tensão emocional), insucesso escolar, alterações nos ciclos de sono/vigília (com possível ocorrência de insónias), dificuldades de concentração. Assim, ainda que não exista notícia de alguma situação de violência na escola, há que estar atento a qualquer alteração de comportamento das crianças e jovens, e conversar diariamente com estes acerca do seu dia na escola. É muito importante que existam adultos nos quais os jovens depositem a necessária confiança para confidenciar qualquer situação alarmante, portanto, aqui deixo algumas indicações práticas sobre como monitorizar estas situações.

   Não seria legítimo generalizar, mas a verdade é que o actual sistema de ensino encerra em si diversas situações que podem propiciar violência entre crianças e jovens. Desde logo, muitas escolas não possuem os recursos humanos bastantes para manter sob vigilância a área bastante extensa dos recintos escolares, havendo sempre zonas mais escondidas e menos vigiadas onde é maior a vulnerabilidade dos mais fracos ( por idade, estatura física ou maior fragilidade emocional). Também as regras aplicáveis à obrigatoriedade de frequência do ensino até idade mais tardia conduzem a situações limite, que se tornam recorrentes em muitas escolas, onde alunos mais velhos, com graves problemas de indisciplina (e com vasto registo disciplinar, e expulsão de anteriores estabelecimentos de ensino) perturbam constantemente as aulas, desafiam professores e auxiliares de acção educativa e tendem a impor-se aos colegas mais novos criando-lhe medo e intimidando-os, perturbando o normal funcionamento do sistema de ensino, ao invés do que seria desejável.

   No âmbito profissional diariamente sou confrontada com relatos que, há uns anos atrás seriam impensáveis, de turmas com graves problemas disciplinares, onde os professores literalmente não conseguem dar aulas, e onde, consequentemente, os alunos que queiram aprender e ser bem sucedidos acabam por se perder no meio de um sistema que está subvertido.

   Mais grave ainda foi uma situação de que tive conhecimento através de pais e alunos que conheço pessoalmente, num estabelecimento de ensino próximo da área onde resido, um jovem com quase 18 anos de idade frequenta uma escola de 2º e 3º ciclos do ensino básico, e tem gerado um verdadeiro clima de terror entre muitos alunos do 5º ano, extorquindo-lhes dinheiro, exigindo maços de tabaco, ameaçando mesmo deslocar-se até junto das residências dos jovens, numa atitude claramente intimidatória que gera e pretende gerar medo como forma de manipulação. Nos últimos relatos que me foram feitos chegar, soube estarem já em curso diligências oficiais de inquérito e que quero crer levem a uma punição deste jovem, e até ao seu afastamento desta comunidade escolar.

   Se pensarmos que situações como a que acima descrevo são parte integrante do dia a dia de muitas escolas Portuguesas, se tivermos em conta que estas situações ocorrem dentro dos recintos das escolas e que, em muitos casos, nem sequer é possível reunir provas bastantes para uma pronta intervenção, porque as vítimas se calam por medo, pode ser assustador pensar na natural progressão das nossas crianças e jovens no sistema de ensino nacional, e nas condições de segurança que este poderá não conseguir garantir.

   Converse diariamente com os seus filhos, acompanhe de perto o seu percurso escolar, procure estar em contacto permanente com a comunidade escolar (outros pais e colegas do seu educando, professores, directores de turma, associações de pais e encarregados de educação) e fique atento a algum sinal de alarme que não deve, de todo, ser ignorado.
 
  Na escola, o Seguro morreu de velho!

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