domingo, 11 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Assédio ou não, eis a questão | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Recentemente temos assistido à divulgação pública de diversos casos de assédio. Começou, de forma mais séria, e, ao que parece, sustentada, com uma acusação ao produtor norte-americano Harvey Weinstein, ao que se lhe juntaram várias actrizes a corroborar a acusação de assédio, violação e chantagem sexual.

De imediato, algumas das chamadas figuras públicas multiplicaram-se nestas confissões e desfilam, um pouco por todo o lado – incluindo Portugal -, numa parada de moralismo, dizendo terem sido assediadas por este e aquele. Alguns homens, nomeadamente actores internacionais de topo, queridos desde sempre do grande público, viram as suas vidas pessoais e as longas e brilhantes carreiras arruinadas numa fracção de segundo.

A situação tomou proporções tais que um grupo de mulheres, onde se encontra a conhecida actriz francesa Catherine Deneuve, veio em sua defesa, afirmando que é necessário denunciar situações como a de Weinstein, mas que não se pode generalizar e que estas acções provocaram uma nova vaga de puritanismo, assente num discurso de ódio contra os homens.

Tenho quase a certeza que muitos homens por este mundo fora ficaram com os neurónios a fumegar, ao vasculhar apressadamente nas memórias mais recônditas, à procura de algum avanço mais intenso e alguns terão mesmo rezado a todos os santinhos para que as inocentes insinuações não passassem disso mesmo, na mente dos alvos dos seus desejos.

Neste ponto, e sem querer defender este ou aquela, há algumas questões que, inevitavelmente, assaltam a minha mente: ao que é que se poderá chamar assédio ou simples insinuação? Quantos de nós, mulheres e homens, podemos dizer nunca ter sido assediados, ou alvo de insinuações mais ou menos intensas e como lidámos, ou lidamos, com isso?

Assediar sexualmente é cercar o outro; é perseguir com insistência, importunando com tentativas forçadas de contacto sexual. A insinuação é a forma de alguém dar a conhecer ao outro, subtilmente, as suas intenções, os seus desejos e objectivos. Sem insinuação não haveria sedução, aquele maravilhoso jogo amoroso em que tanto se diz sem palavra nenhuma. Ninguém intuiria o que o outro deseja ou sente. Ninguém se sentiria desejado o que, admitamos, tornaria as nossas vidas muito menos coloridas, sem aquela dose de “filme cor-de-rosa” que nos faz sentir o coração a bater mais depressa e nos arrepia deliciosamente a pele e que todos, bem lá no íntimo, desejamos experienciar. A insinuação alimenta-nos os sentidos, o ego e faz-nos sentir vivos. 

Não devemos confundir a perseguição com a simples demonstração de sentimentos ou desejos. Uma é negativa, a outra não. Uma pode ser destruidora, a outra pode ser construtiva e saudável – grandes amores já nasceram de uma simples insinuação.

Parece-me que, além do modo como devemos discernir entre uma forma e outra, não confundindo as situações e pondo tudo no mesmo patamar, é extremamente importante como escolhemos viver qualquer uma das situações. Se com uma insinuação indesejada temos, tantas vezes, o cuidado, a sensibilidade de tentar não magoar os sentimentos do outro, no caso do assédio creio que deve ser feito precisamente o contrário. Acredito que qualquer assédio deve ser prontamente denunciado. Não se deve esperar décadas para o fazer, como no caso de algumas alegadas vítimas de Weinstein. Quanto mais tempo passa, mais tempo o autor do comportamento indevido tem para continuar a molestar as actuais ou novas vítimas. É importante travar o comportamento abusivo. É importante afastarmo-nos o mais possível desse tipo de pessoas. É importante termos amor-próprio. Os assediadores nunca se ficam por uma vez, ou duas… aquilo há-de continuar; até a vítima se libertar. Poderão dizer que no caso de um chefe, um patrão, a coisa é mais difícil… o emprego… a estabilidade… mas qual estabilidade?! Alguém que vive uma situação de assédio no local de trabalho não tem estabilidade; é impossível tê-la; e rapidamente essa instabilidade se estende a outras áreas da sua vida. É aqui que entra o amor-próprio, que nos dá a coragem de viver dignamente e em paz e nos faz romper com uma situação indesejada, mesmo que isso signifique mudar de local de trabalho. Nada vale mais que o nosso bem-estar, a nossa tranquilidade.

Creio que, mulheres e homens – eles também são vítimas de assédio e cada vez mais -, numa situação destas deverão usar de bom senso para pôr as coisas no seu devido lugar, ao invés de irem com a corrente, como se de uma moda se tratasse, adoptando posteriores posturas extremistas e levando tudo à frente como um bulldozer. Se é verdade que há pessoas que merecem o rótulo de assediadores e devem ser tratadas em conformidade, não é menos verdadeiro que há outras que estão muito longe disso e não devem ser “metidas no mesmo saco”.

A Catherine Deneuve diz que isto despoletou uma vaga de puritanismo – falso, bem entendido; eu digo que o ser humano sempre gostou de uma boa “caça às bruxas”.

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