quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Noturno arco-íris | HÉLDER MENOR



A primeira viagem oficial do Presidente da Republica foi uma romaria ao representante de Deus na Terra. Acalmem-se os beatos crismados, os moralistas republicanos e os mata-frades de serviço, que não pretendo teorizar sobre o catolicismo num país laico. Apenas constatar. Constatado está.

Aqui há uns anos, assisti de longe à penitente e pedonal peregrinação de um vereador que depois de ser eleito, caminhou da margem-sul até à Cova de Iria. O autarca peregrino era militante comunista.

Ambos, presidente e vereador, foram agradecer a um remoto divino a graça da acumulação dos votos na urna.

Debaixo das pedras de mil anos de catolicismo romano, que incluem os duzentos anos de santo-oficio, não foi possível, ainda (e felizmente!) converter completamente este povo aparentemente submisso. Por mais que sejam as camadas de asséptica cal sobrepostas no painel de azulejos, não se conseguiu ainda estripar aquilo a que o racionalismo chama arrogantemente de superstição. Batizados e confessados, muitos casados pela igreja mas de uma religiosidade popular politeísta, somos um povo de blasfemos com fé. 

Comunistas assumidamente ateus, fazem romagens à campa da Catarina Eufémia. Os socialistas em cargos oficiais são presença assídua nas  barrocas procissões do Santo Cristo nos açores. Muitos sociais-democratas fazem questão de, ao domingo, assistirem circunspectos à santa missa. Os centristas, antes de serem populares já eram católicos apostólicos.

Quando chega à altura das eleições é um corrupio de promessas. Para lá das públicas promessas eleitorais, estão as secretas promessas mágicas e religiosas, negociadas taco a taco com um qualquer Deus. Há nas vidas, praticas politicas e dos políticos, todo um registo transversal de recorrência a alianças com o sagrado. Velinhas e galinhas na encruzilhada para ganhar eleições.

Tudo normal e natural numa terra de milagres. Mas tudo feito com o pudor e o secretismo necessário à imagem pública do racionalismo cientifico obrigatório, aqueles que querem ser levados a sério. Seja o que for que isto quer dizer.

Um presidente de camara do norte do país, todas as primeiras segundas-feiras do mês, vai dar as sete voltas à capela do senhor da pedra em Matozinhos. Fá-lo em segredo, naturalmente. Há um conhecido deputado social-democrata que é visita frequente no gabinete de reconhecido astrólogo nas Amoreiras..., mas evita falar sobre o que vai lá fazer. Há uma senhora que foi ministra pelo partido socialista que participa recorrentemente em rituais de evocação das forças da natureza na noturna beleza romântica da serra de Sintra. Vai anonimamente e nunca entra nas fotografias do grupo. Diz quem sabe, que muitos comunistas deixam como vontade explicita de, após a sua morte, serem cremados e que as suas cinzas sejam depositadas na quinta da atalaia durante a festa do avante... Se acontece ou não, não sabemos. Diz-se que uma reunião da direção nacional do BE foi adiada porque duas pessoas da sua direção estavam num retiro de ayhuasca, procurando no êxtase e nas visões autoconhecimento e caminho. Diz-se porque as próprias não comentam sobre isso publicamente.

Nas áreas mais emocionais, como por exemplo, o universo desportivo, também o mágico e o sobrenatural emergem de mão dada na turbulência dos confrontos. Ainda com mais intensidade do que na politica. Ou com igual intensidade mas com menos pudor. No desporto as pessoas são mais genuínas do que na política e revelam mais de quem são.

Temos em direto um treinador que ganhou o campeonato europeu, a dizer, que o relacionamento que mantem com Deus (o seu Deus), foi fundamental para alcançar os resultados desportivos. Acredito que sim, que foi. E temos os bruxos e os mágicos, que se assumem como fornecedores de serviços aos clubes. E os jogadores que se benzem antes de entrar em campo. E as medalhas ao pescoço. E os galos e cordeiros sacrificados antes do jogo. E as chuteiras benzidas. E os concelheiros espirituais dos jogadores. A memória do Zandinga é algo que muitos de nós temos presente. E há o polvo vidente que adivinha resultados.

Dizia o escritor baiano de Itaparica, João Ubaldo Ribeiro, que se a macumba vencesse jogos de futebol, o campeonato estadual da Bahia acabava com empate técnico. Provavelmente terá razão.

Claro que enquanto povo, quando falamos nestes temas, no coletivo do café ou na impunidade das redes sociais, alteramos entre o jocoso e o criticismo. Mas em privado é diferente... Como povo bem-comportado que somos, obedecemos à imagem de um institucional catolicismo tradicional ou a um generalizado ateísmo cientifico social. Estatisticamente, somos católicos não praticantes, o que quer que seja que isto queira dizer. Mas para lá da estatística, e quando a incerteza e a adversidade aperta, está todo um manancial de magia e superstição para nos servir e a mostrar quem realmente somos:
-- "Doí-me a cabeça, vou pedir a alguém que me tire o quebranto!"
-- "Amanha, faço exame de condução, acende-me uma velinha"
-- "Será que ele tem outra? Veja lá aí nas cartas!"
-- "Caraças, esta equipa é só derrotas, temos de ir à bruxa".

E vamos às bruxas, às videntes, aos tarólogos e aos astrólogos.

Desenganados das científicas batas brancas, no silêncio com que lemos os horóscopos dos jornais, la vamos. E aprendemos onde moram os chakras. E recorremos aos templos e aos santos. E à corrente de libertação da quinta-feira. E fazemos promessas e mezinhas. E recorremos a feitiços e fetiches. E engolimos o corpo de deus materializado em pão. E usamos a figa. E desviamos os olhos quando nos cruzamos com um carro funerário.

Porque todas as ações e decisões são por si um infinito universo de possibilidades.

Se um decisor se vai consultar com uma vidente, está a assumir, mais que não seja perante ele próprio, a sua fragilidade e falibilidade das suas escolhas. E isso é bom. É bom quando quem exerce o poder, se apercebe da relatividade e do caracter efémero de todas as ações humanas, incluindo as suas.

Que venha a magia e o sobrenatural tempere o insonso cinzento dos dias.


Porque no fundo, bem lá no fundo, só há uma certeza: todas as certezas estão erradas!

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