quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Noturno arco-íris, Solidão Partilhada | HELDER MENOR


A Vanda vive com o fantasma de uma velhinha. Moram as duas no sétimo direito.

A idosa apareceu-lhe uns meses depois de se ter separado. Enquanto casada, a angústia das ausências do marido e os ciúmes com que ardia, não a deixavam ver mais nada. Depois do Paulo sair de casa, começou a vê-la. Passou a ter mais tempo para olhar por ela, para ela e para as coisas à volta. A velhinha apareceu a primeira vez, numa noite de terça-feira, depois da Vanda adormecer no sofá. 

Acordou sobressaltada e com frio no sofá, levantou-se e foi para a cama. Foi então que percebeu a silhueta recortada na porta da cozinha. Parecia morta e parada atrás de uma espécie de mesa de ferro sem tampo. A viva não teve medo. Para dizer a verdade, nem pensou no assunto, caiu na cama e continuou a dormir e a sonhar com o ex-marido. Só na manhã seguinte se deu conta que a velha não fez parte do sonho. Ao final da tarde, a fazer o jantar na cozinha e a pensar na silhueta, ouviu os passos leves ponteados por uma espécie de bengala e sentiu uma presença a atravessar a sala.

- Devo estar a ficar maluca.

Estava. Afinal de contas, estamos todos. 

Nessa noite, a Vanda foi sentar-se a comer a sopa detox adelgaçante que bimby cozinhou. 
Sentou-se no seu canto do sofá da sala e fugiu ao mundo em episódios sucessivos de polícias fortes, lindos, inteligentes e americanos. O fantasma da velha pairou-lhe na mente mais uns dias.

Passaram umas semanas. Num sábado de manhã, enquanto aspirava o chão da sala, bem acordada, voltou a ver a velhota. Inteirinha, nem esfumada nem nada. A imagem completa, refletida no espelho em frente à porta da rua. Enrugada, magra e pequenina. Tinha o cabelo encaracolado branco e marcas nos braços de quem passou muito tempo a soro. Um vestido leve tipo bata clara com flores azuis e um andarilho de alumínio à frente. Apenas por um instante. Mas viu bem. Curiosamente, mais uma vez, não se assustou. Continuou a aspirar. Depois comeu uma sandes de queijo fresco e foi tomar banho.

À tarde contou à Tita, que faz reiki e é assim meio espiritual.

- Caraças, pá miúda, temos de ver o que é isso e quem é essa velha!!!

A Tita ficou entusiasmada e marcaram logo uma “sessão energética” para essa noite. Inclusive a Tita, até desmarcou um jantar que tinha com um mais-ou-menos namorado. Ligaram à Maria João, uma amiga da Tita que é mais graduada no Reiki e em anos de divorciada...

Jantaram as três frango assado e nem beberam o vinho verde que gostam porque a João, disse que o espírito podia ficar ofendido. Sentaram-se à volta da mesa da sala, acenderam umas velinhas redondas dentro de copos (eram as únicas que tinham), apagaram a televisão e deram as mãos. A João presidia a cerimónia com voz profunda.

- Espírito que estás nesta casa, por favor apresenta-te aos teus irmãos vivos e dá-nos um sinal. (Pausa). Espírito que estás nesta casa, por favor apresenta-se aos teus irmãos vivos e dá-nos um sinal.

Nada. Nada de sinal. Nem vozes, nem corrente de ar, nem velas a apagar. Nada.
Apenas um silêncio frio e desconfortável.

A João repetiu o apelo, um num tom sério... como aqueles dos carros mal estacionados nas caves dos hipermercados... mais lento e pesado. É um espírito tímido, concluiu, às vezes acontece, sobretudo se são mulheres...

Picado por esta boca algo machista, a alma da velhinha manifestou-se na cozinha. Um copo cometeu suicídio lançando-se do alto do escorredor onde estava deitado acabado de lavar e à espera de secar… Um copo grande de água com riscas amarelas. Vidro grosso partido com estrondo espalhado no chão.

As três vivas gritaram o susto. A João, depois de recomposta, sorriu conhecedora. Tita ficou arrepiada e teve de ir a correr fazer xixi. A Vanda levantou-se, acendeu as luzes e foi varrer o chão da cozinha. Acabou-se ali a sessão.

Decidiram sair. Foram a um bar ouvir música brasileira e beber umas caipirinhas que custaram os-olhos-da-cara-mas-um-dia-não-são-dias. A Vanda nessa noite acabou por ir dormir a casa da Tita que ficou imprópria para conduzir.

Depois da sessão e do copo a partir-se, a velhinha começou a aparecer mais vezes. Passou a ser uma presença quase permanente lá em casa. A Vanda foi-se habituando ao perfume Madeiras do Oriente.

Passaram-se meses desde que o copo caiu do escorredor.

Uma tarde destas, cruzou-se com a João na rua.

- Vanda temos que fazer outra sessãozinha lá em tua casa, mas desta vez, levo uma defumação, para expulsar o espírito...

A Vanda indignou-se!

- Expulsar?? Nem pensar nisso, deixa estar a senhora. Faz-me mais companhia que o meu ex e dá menos trabalho que um gato. Não preciso de lhe andar a ver as mensagens do telemóvel nem de lhe mudar a areia da caixa!!!! Além disso desde que a Tita disse no café que tenho um fantasma em casa, a Dona Idália do primeiro frente deixou de me querer arranjar casamento com o filho que é gay.



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