quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Maioridade | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

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Depois de um início de vida privado de todos os objectos da moda, spectrum, walkman, lembrando somente alguns, mas que todos os amigos tinham, Nunes pensava poder ter finalmente alguns dos benefícios que a maioridade lhe garantiria. Lançava olhares disfarçados ao seu velho pai tentando perceber o que lhe teria preparado para o importante dia, enquanto tentava retirar parcas palavras da sua mãe, pois a coitada continuava a preferir adotar a postura de distraída a roçar o lerdo abstraindo-se de tudo o que a rodeava mesmo que isso implicasse o desaparecimento do marido durante todos os meses que compunham o Verão.

Na verdade, nunca soube o que fazia ou para onde ia o velho manhoso, mas naquela fase da sua vida também pouco lhe interessava afinal aqueles meses acabavam por ser sagrados para ela pois fazia o que mais gostava, dormir, melhor mesmo seria se o Nunes fosse para casa do primo onde aliás ultimamente passava mais tempo do que na própria casa.

Chegou o grande dia e o pai organizou um jantar de aniversário que envolvia a família e mais um ou dois casais conhecidos, pois era necessário que alguém trouxesse o vinho para regarem a celebração. Já oferecia a casa e a língua de vaca estufada, nos meses que se avizinhavam ficariam a pão duro e água, sendo que esta tinha que ser racionada, porque até ficava seco de pensar nas contas, pelo que as oferendas deveriam ter utilidade e chegar em forma de bebida.

Os convidados conhecendo bem o seu anfitrião já vinham jantados de casa e por esse motivo a língua de vaca conseguia voltar a ser congelada quase intocada para ser requentada na ceia do Natal seguinte.

O Nunes andava cabisbaixo, exceptuando a família não conhecia nenhum dos outros convidados, mais uma vez não tinha o seu único amigo Paulitos presente porque o pai não gostava dele. Ia esbanjando todo o seu charme, como o pai lhe ensinara. Envergando calças de ganga azul deslavada com uma camisa no mesmo tom, circulava pelo meio dos convivas com o seu copo de vinho inalterado. Bebericando. Não aguentava bem a bebida e particularmente naquele dia nada poderia correr mal.

Mas correu. Quando inchado se aproximou de duas primas trazidas de propósito para conhecê-lo, não sabia ao certo o que fazer aproximou-se cantarolando “uma é loira, outra é morena…” e sem ninguém esperar no único momento de coragem que teria em toda a sua vida, bebeu o liquido de um trago desajeitadamente partindo o copo com os dentes. As primas abriram muito os olhos de espanto, aquela era uma imagem que ficaria para sempre marcada nas suas memórias por muitos anos que vivessem. Nunes com um pedaço do vidro do copo na boca a esgaçar um sorriso enquanto o primo aparecia para o salvar do ridículo, apesar de já ser um pouco tarde para isso. Pousou-lhe a mão no ombro comunicando em voz alta.

- Não bebas mais que hoje vais finalmente conhecer os prazeres que uma meretriz da noite te pode oferecer. Eu pago.

E assim o Nunes conheceria da pior forma como dar prazer a uma mulher, sem saber, no entanto, que nem sempre quando se ouvem gemidos signifique que a coisa esteja a correr bem pode ser também o sinal de que se deve despachar porque vai começar uma telenovela brasileira nova a não perder.


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