terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Dia Zero - O Dia em que as Torneiras vão secar | PAULO DA COSTA GONÇALVES

Apesar dos sucessivos adiamentos continua a ser muito provável que o primeiro Dia Zero de uma metrópole urbana acontecerá a 4 de Junho do presente ano na Cidade do Cabo a segunda maior da África do Sul. Ou seja, a água que por enquanto ainda vai vertendo das torneiras, e é contada ao segundo, parece ter os dias contados e provavelmente esgotar-se-á devido à pior seca dos últimos 100 anos e que ocorre há 3 anos. 

Segundo o hidrogeólogo português Rui Hugman, que há perto de um ano integra o projeto de abastecimento da água de emergia na Cidade do Cabo: “O Dia Zero é o dia em que as barragens chegam ao nível mínimo de água e em que deixa de haver o suficiente para o abastecimento da população. O dia em que as torneiras vão secar.” 

Fruto do fenómeno climatérico “El Niño” tanto as chuvas de verão, não ocorreram, como as de inverno, por norma mais substanciais, também continuam fora das previsões meteorológicas. Por consequência as barragens continuam a secar, apesar de todos os racionamentos em vigor.

Inicialmente vaticinado para 16 de Abril, foi posteriormente presumido para 11 de Maio e agora está previsto para 4 de Junho. Os esforços da cidade para limitar o consumo com interrupções significativas, a sensibilização de grande parte da população local para um uso contido e o declínio no uso da agricultura têm contribuído para os sucessivos adiamentos do Dia Zero. No entanto os bairros mais densamente povoados já correm o perigo de desenvolver focos de doença pela ausência de água corrente.

Se o “Dia Zero” se tornar um facto no próximo 4 de Junho ou em qualquer outra data posterior, os habitantes da Cidade do Cabo e segundo o governo regional, passarão a dispor de apenas 200 pontos de recolha de água, onde poderão receber, no máximo, 25 litros de água por dia por pessoa.
Mas os problemas relacionados com o acesso a água potável não se limitam aos cerca de 4 milhões de habitantes da Cidade do Cabo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as secas estão cada vez mais severas e afetam já aproximadamente 850 milhões de pessoas um pouco por todo o mundo e por isso, para além de inacreditável é inaceitável que um recurso natural essencial, como o é a água, ainda seja tão desperdiçado quando menos de 1% da água de todo planeta é doce e está disponível para o consumo humano.

Por exemplo, de acordo com a GIZ (consultora ambiental alemã) nos países em desenvolvimento e emergentes, cerca de 80% da água é perdida em vazamentos por deficiências nas infraestruturas de distribuição às populações. Mas essa tipologia de desperdício é também um facto em algumas áreas de muitos dos países mais desenvolvidos, onde chegam a atingir os 50%.

Algumas fontes (ONU, UNICEF, etc.) estimam que atualmente um bilhão e 200 milhões de pessoas (35% da população mundial) não têm acesso a água potável tratada. Cerca de um bilhão e 800 milhões de pessoas (43% da população mundial) também não acessão a serviços adequados de saneamento básico e devido a estas ocorrências constatam que anualmente e em decorrência de doenças, principalmente intestinais transmitidas pelo consumo de água não tratada, morrem dez milhões de pessoas no mundo. As mesmas fontes estimam ainda que há uma grande probabilidade de, nos próximos 25 anos, dois em cada três habitantes do planeta, enfrentarem problemas no abastecimento de água potável devido ao crescimento populacional, à poluição das águas, ao desperdício na distribuição e uso, e principalmente devido às mudanças climáticas.

As mudanças climáticas irão originar em que vivamos num mundo em que a água se torna um desafio cada vez maior e onde a sua escassez será agravada, por um lado, em virtude da desigualdade social, e por outro lado, da falta de manejo no uso sustentável deste recurso natural onde apenas 6% se destina a uso “doméstico”, 73% à irrigação agrícola e 21% para a indústria. 

Diante deste cenário o recurso tecnológico para uma maior aplicação de soluções “inteligentes” na gestão da água é mais um desafio dos líderes políticos que não podem, tal como numa crónica anterior chamei a atenção por já estarem em falha com os atuais refugiados climáticos, separar a política populacional da do abastecimento de água.



Foto: Direitos Reservados | Internet

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