sábado, 3 de fevereiro de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | A anti-cultura televisiva dos "reality shows" | ISABEL DE ALMEIDA

Já se vislumbram anúncios televisivos a convidar as hostes para as inscrições no próximo "Secret Story" ou Casa dos Segredos, o que faz pensar que, em nome das audiências lá vamos nós regressar ao Vale Tudo. A maioria dos concorrentes deste tipo de programa são pessoas "escolhidas a dedo" pela capacidade de gerar polémica, criar ou alimentar escândalos, gerar empatia por compaixão junto do público, isto sem esquecer algumas edições de reality shows com figuras mediáticas ou relativamente mediáticas (por boas ou más razões) e depois vão surgir os romances construídos "a martelo" ou quem sabe, a pedido da produção. 

Aliás, até já se nota alguma proximidade neste mundo televisivo, onde há sempre alguém que foi, é ou alegadamente terá sido namorado de outra pessoa que já passou por estes circuitos.

Confesso que, à laia de curiosidade mórbida desde já assumida, adorava ler os contratos entre concorrentes e produção destes programas, e daria certamente um tema interessante para uma investigação psicológica acompanhar diariamente, in loco, as gravações e proceder a uma análise científica séria de todos os participantes que aceitassem colaborar em tal estudo, respeitando as questões éticas atinentes a um contexto deste género (admito que se trata, por enquanto, de uma mera hipótese que não tive ainda oportunidade de aprofundar minimamente em termos concretos), e para quem considere abusivo um estudo deste género, deixo aqui um convite à reflexão: não estará a televisão a sobrepor-se à ciência, descontextualizando factos, promovendo conflitos pré-existentes, alimentando verdadeiras guerras que em alguns momentos já conduziram a agressões físicas (e a expulsões)? Não serão a pressão psicológica e até alguma manipulação mais ou menos assumida em termos de produção limites tão graves quanto o da violência física, mas que se convencionou ignorar em prol das audiências?

Depois temos o reverso da medalha, a fama destes concorrentes costuma, por norma, ser efémera. E os "feitos" pelos quais se tornam famosos não são propriamente as "obras valerosas" a que aludia Luís de Camões em "Os Lusíadas". Já alguém parou para pensar no antes e no depois desta mediatização e das repercussões da mesma na vida destas pessoas "cronologicamente" adultas?

Neste âmbito, há algo que me incomoda como cidadã com formação em Psicologia e como profissional ligada também à área da educação: será correcto expor as nossas crianças e jovens à visualização destes conteúdos televisivos? E numa segunda abordagem, ainda que a supervisão parental o impeça, é possível isolar alguém destes conteúdos na era global onde grande parte da população juvenil e até infantil facilmente acede à internet, quer através de tablets, telemóveis ou computadores pessoais, ou porque há sempre aquele amigo mais velho que, até por afirmação pessoal mostra os conteúdos?

As conversas de café em zonas mais pequenas onde as pessoas se conhecem são também povoadas por estas personagens que invadem os nossos écrans para gáudio de muitos. As revistas ditas cor-de-rosa esfregam as mãos pois já pressentem ir vender mais uns exemplares entrevistando os concorrentes, descobrindo segredos mais ou menos sórdidos das suas vidas, alimentando também os conflitos que chegam a envolver familiares, ou expondo e lucrando com os dramas pessoais que sempre acabam por vir a lume nestes contextos.

Gera-se toda uma economia paralela aliada a este fenómeno, nomeadamente, são famosos os elevados valores que, enquanto dura o fogo fátuo desta fama, os concorrentes cobram por presenças em espaços de entretenimento nocturno, ou em festas diversas.

E pergunto eu, se efectivamente estes programas são "reality shows" (espectáculos da vida real, numa tradução assumidamente literal) está o nosso nível cultural assim tão mal de saúde? É assim viável o exercício da função pedagógica e aculturadora do mais poderoso e eficaz meio de comunicação social que dá pelo nome de televisão?

Tudo vale em nome das sagradas audiências? ... Parece que sim!

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