segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A HUMANIDADE E A DESUMANIZAÇÃO, de Cristina Das Neves Aleixo















Este é um tema que me tem dado uma boa dose de inquietação, pela sua crescente transversalidade ao ser humano, contemplando crianças e adultos. Desde as barbaridades das guerras à corrupção em todas as áreas, passando pela notória falta de paciência e agressividade do cidadão comum, até ao bullying juvenil e, até, infantil.

É certo que guerras e elementos sem brio e ocos de emoções sempre houve, o hoje chamado bullying também e a natureza humana sempre gostou de ter e ostentar poder, mas creio que ainda existiam alguns limites que, nos dias que vivemos, já foram amplamente ultrapassados. Aquilo que verifico, actualmente, enquanto observadora atenta do que me rodeia, é que todos os valores morais de que éramos imbuídos desde o berço estão a desaparecer. O respeito, a honra, a honestidade, a abnegação, o esforço e a empatia estão a dar lugar aos seus opostos. Estamos a esquecer-nos do que significa ser humano, do verdadeiro e enorme significado que essa palavra encerra.

Os adultos estão demasiado ocupados em conseguir os meios para ter e dar uma vivência cada vez mais materialista e de ostentação; querem ser e ter mais e melhor; são desafiados a isso, pelo sistema perfeitamente montado para efeito e crêem – falsamente – serem recompensados por tanto esforço, por relegarem as famílias para segundo plano, por abandonarem as bases morais, os alicerces com que os seus pais os dotaram para enfrentarem os desafios da vida. Fazem desmoronar os princípios básicos da sustentabilidade de uma sociedade pacífica e próspera para todos e dão início às fundações da anarquia e do caos. O comodismo e a inércia instalam-se e permitem-se serem guiados – usados – por pares completamente cegos pelo poderio e viciados no sofrimento alheio.

Os miúdos, completamente desacompanhados, crescem sem qualquer noção do que é viver em sociedade, do que custa ter e manter uma vida minimamente confortável e honrada. Tornam-se insensíveis e desligados de emoções positivas; regridem às emoções primárias, as anteriores à evolução, aquelas que nos permitem a defesa e o ataque e tomam-nas como princípios essenciais à vivência. São o produto perfeito dos seus desgastados e hipnotizados pais. E são, também, o futuro, os percursores da nossa espécie. Pergunto-me que valores, que vivências, que experiências irão construir o futuro; o que passarão aos seus próprios filhos; que legados deixarão.

A nossa história tem algumas figuras completamente maquiavélicas, ao longo dos tempos, mas nunca se viu tantos exemplos de prepotência e desumanidade como agora. Temos líderes mundiais que afirmam que a forma de combater a violência armada é armando, ainda mais, o cidadão comum; outros querem, a qualquer preço, ter o melhor armamento e divertem-se a espicaçar e a ver o resto do mundo a tremer de medo e de raiva, enquanto fazem mais um teste nuclear aqui, outro ali; há aqueles que torturam e matam em nome de uma qualquer crença religiosa e perpetuam no tempo guerras e acossamentos infindáveis; pululam os corruptos, os oportunistas e ladrões, que não hesitam em espezinhar quem se atravesse no seu caminho para travar os seus objectivos.

E o cidadão comum é liderado por estes exemplos a negativo da essência humana. Torna-se também ele frio e calculista – a necessidade aguça o engenho; torna-se, também ele, o exemplo a não seguir.
Na base da pirâmide estão os jovens e as crianças. E eles crescem a violentar física e psicologicamente os pares e os parceiros de vida, cada vez mais cedo; a matar pais e irmãos; a descartar os mais velhos já a necessitar de amparo e empatia – algo que não conhecem. Perdem-se para a vida, pois não vivem, apenas sobrevivem.

Lembro-me de há vinte ou trinta anos ver alguns filmes de ficção científica que retratavam um futuro apocalíptico, de paisagens cinzentas pela destruição em massa, onde o sol se tinha eclipsado há muito, despojado de sentimentos e dominado pela necessidade primária da sobrevivência a qualquer custo. Na altura pensei que eram representações sem qualquer sentido. Quem, no seu juízo perfeito, seria capaz de tais atrocidades? de se destruir a si próprio?! Hoje, infelizmente para todos nós, penso que os criadores desses cenários foram verdadeiros visionários.

Não nos podemos esquecer que somos uma espécie privilegiada: temos a opção da escolha e “damos cartas” nesta ainda maravilhosa bolinha azul. Podemos sempre escolher entre o certo e o errado, assim tenhamos as bases para isso.

Chegamos ao ponto em que se impõe uma única pergunta, que pode mudar o rumo da nossa espécie, de todo o planeta: vamos escolher viver confortavelmente ou sobreviver no caos? A escolha é mesmo só nossa e começa em cada um mas… não por muito tempo.

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