terça-feira, 29 de outubro de 2019

A QUINTA ROSA, de Fernando Teixeira














Tinha sido um novo choque para ela… e para ele. Para ambos. Dois embates, um a seguir ao outro. Bom, em rigor, talvez não pudessem designar como choque o que sentiram quando souberam que ela estava grávida pela terceira vez. Porém, aquela gestação não tinha sido desejada, planeada, e a notícia souberam-na com alguma perplexidade.

À vida estabelecida do agregado familiar, dois filhos em idade escolar, tudo nos devidos eixos, sobrevinha uma situação inesperada que virava o dia-a-dia do avesso. O dela e o dele. O dia-a-dia de ambos, e o dos filhos quando lhes contassem a novidade. No entanto, rapidamente se habituaram à ideia de que iam ser pais, de novo. Já o eram, por assim dizer, pela terceira vez. Habituaram-se à ideia, entendendo que deveriam aceitar isso como uma dádiva. Tal ideia alimentou-lhes o entusiasmo, e aquela gravidez passou a ser desejada. Quem sabe, não seria a menina que lhes faltava?

Começaram a equacionar planos e a fazer contas à vida. A família crescia e teriam de se adaptar a novas rotinas, a repetidos procedimentos que a idade dos filhos já havia feito esquecer. Outro bebé. Fraldas, biberões, noites mal dormidas… Começaria tudo de novo, pois então! Oxalá, fosse uma menina…

E então veio aquele dia. Há muitos anos atrás. O dia do segundo embate. Esse sim, um verdadeiro choque, anunciado pelas fortes dores abdominais que ela sentiu ao chegar a casa, depois de um dia de trabalho. Dores que se prolongaram por algumas horas, dores agudas, no corpo e na alma, a hemorragia dilacerando-lhe a esperança, o coração desfeito pela eminência da perda irreversível. No dia seguinte, o ginecologista confirmaria que nenhum coração batia mais no seu ventre.

Uma profunda tristeza abateu-se sobre ambos. Ela e ele. Tinham perdido o seu bebé, após três meses de gravidez. Quem sabe? Aquele feto talvez fosse mesmo a menina que lhes faltava!

Passou uma semana. Ele nada podia fazer para a confortar. Nada mesmo. Ainda assim, ofereceu-lhe um ramo de cinco rosas vermelhas, uma rosa por cada um dos “cinco” que eles podiam ter sido. Num sufoco, ela colocou as rosas numa jarra.

Um dia depois, quatro rosas continuavam bem viçosas e uma começou logo a murchar.

Ainda hoje, ela guarda essa quinta rosa!
     

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