terça-feira, 8 de outubro de 2019

ENTREVISTA | ESCRITORA ANGELA SAINI



Angela Saini nasceu em Londres em 1980. Possui dois mestrados em Engenharia pela Universidade de Oxford e, em Ciência e Segurança pela King's College de Londres. Trabalhou como repórter da BBC. Em 2008 tornou-se escritora freelancer. Em 2009 foi nomeada Jovem Escritora Europeia de Ciências.
Publicou os livros:
2011 – Nação Geek: Como a ciência indiana está a dominar o mundo.
2018 - Inferior: como a ciência sempre desvalorizou a Mulher e os novos estudos que estão a corrigir esse erro.
2019 - Superior: o retorno da ciência racial.

Foi acerca do seu livro “Inferior: como a ciência sempre desvalorizou a Mulher e os novos estudos que estão a corrigir esse erro” publicado este ano pela Desassossego uma das chancelas da Editora Saída de Emergência que conversámos com a autora.

MBC – O que a levou a escrever este livro?
AS – Pura coincidência. Foi-me pedido por um grande jornal do Reino Unido um artigo sobre a menopausa, um assunto sobre o qual confesso nunca ter pensado até esse momento. Por esse motivo tornou-se num estimulante fazê-lo. Independentemente de ter aceite este desafio, decidi abordar o tema sob uma perspectiva mais científica, começando pela explicação evolutiva. O motivo pela qual a mulher experimenta a menopausa. O que descobri é que a menopausa é extremamente rara na maior parte das espécies animais. Além dos seres humanos e das Orcas, são poucas as espécies que passam por este processo. O mais bizarro foi descobrir que a menopausa não é comum a nenhuma espécie de primatas.
Após intensa pesquisa deparei-me com diversas teorias. Por exemplo, a teoria da avó que diz que as mulheres à medida que envelhecem são tão cruciais para a sobrevivência de filhos e netos que aumentam a sua longevidade ao ponto de se tornarem estéreis. Uma outra teoria publicada por três canadianos dizia que as mulheres se tornam inférteis porque com a idade deixam de fazer sexo. É evidente que mesmo na altura da sua publicação foi refutada por estar pobremente fundamentada. Não existia nenhuma base evolutiva nesta concepção, nada do que diziam fazia sentido por não existirem dados que comprovassem as suas afirmações.
Contudo, fascinou-me ver que com base no género, as pessoas têm opiniões diferentes sobre este fenómeno biológico. O que me levou a explorar o que mais existe na biologia humana, o que nos diz entre as diferenças entre homens e mulheres, particularmente sobre as nossas mentes e corpos. Mas, principalmente como mulher queria factos, saber o que a ciência realmente diz sobre quem sou, quem é a minha mãe, as minhas irmãs, as minhas amigas. Queria respostas para mim e, entendi que essa seria a minha jornada de descoberta.

MBC – Escrever este livro alterou em algum aspecto a sua visão sobre a ciência?
AS – Muita da minha pesquisa como jornalista científica é olhar para os problemas dentro da ciência. A minha função não é trair a ciência, mas descobrir erros, entender as agendas dos cientistas sejam elas pessoais ou políticas, os financiamentos que recebem, tudo o que possa perturbar o processo científico que leva a ciência a não ser confiável aos olhos do público. Tento selar pela acuidade da ciência, nesse sentido não me surpreendeu saber que existiam graves problemas dentro da comunidade científica. Porém, como ser humano e vivendo inserida na sociedade utilizo a minha escrita para expressar a maneira como penso. O porquê da existência de todos esses estereótipos? As suposições sobre quem somos?
Devido à teoria da Avó deixei de pensar da mesma forma sobre a maternidade ou o envelhecimento. Embora sempre tenha sido feminista, de ter sempre lutado pelos direitos das mulheres, toda a minha pesquisa deu-me uma nova dimensão, reafirmando o meu feminismo.

MBC – Sendo jovem, mulher, brilhante e bonita não encontrou oposição por parte dos cientistas?
AS – Ainda é um problema. Qualquer mulher que escreva na área das ciências enfrenta barreiras porque não somos levadas a sério no nosso trabalho. Mesmo hoje quando entro numa livraria reparo que existem inúmeras escritoras publicadas na área da ciência, mas, por alguma razão, os escritores têm maior relevo na divulgação do seu trabalho. O que confesso me deixa extremamente frustrada porque existem brilhantes escritoras e no fundo acabamos por ser tratadas quase como se o nosso trabalho se limitasse a ser uma continuação do trabalho dos homens. Espero ansiosamente que isto mude e, acredito que aconteça se pressionarmos o sistema imposto.

MBC – Em geral, os homens ainda pensam que as mulheres têm corpos e mentes fundamentalmente diferentes?
AS - Ainda há pessoas que pensam dessa forma. Existem obviamente algumas diferenças entre homens e mulheres. Nos nossos sistemas reprodutivos, diferenças médias na altura, mas muitas destas diferenças são tidas em média, por isso existem muitas mulheres que são mais fortes do que alguns homens, outras que são mais altas.
Psicologicamente, quase não existem diferenças. Acho que essa foi para mim a maior revelação. Quando olhamos para estudos psicológicos, dificilmente encontramos diferenças. Limitamo-nos a acreditar quando nos afirmam que existem grandes lacunas entre os géneros, em assuntos como a matemática ou o raciocínio verbal. Na realidade essas lacunas não existem. É nesse momento que nos devemos interrogar porque nos dizem que existem. E rapidamente concluímos que se deve à sociedade e à cultura na qual vivemos que ainda não mudou o suficiente para contrariar estes dogmas.

MBC – Nos nossos tempos não acha estranho que alguns homens ainda se sintam superiores?
AS – A meu ver o problema reside nas mulheres que continuam a pensar que existem diferenças. Mas isso é o que a cultura nos faz crer quando nos diz que a mulher tem um lugar específico, um papel a desempenhar na sociedade. E é claro que para muitos homens beneficia-os manterem esse status quo.

MBC – Mesmo no mundo moderno?
AS - Mesmo no mundo moderno! É triste dizer, mas até em muitas mulheres da minha idade. Uma das melhores mensagens que recebi quando "Inferior" foi publicado, veio de uma menina na Índia que leu o livro e o deu à mãe para o ler. O pai era muito patriarcal, dominante. O que me disse foi que após a mãe o ler começou a enfrentar o pai. Esta mensagem foi a mais importante que já recebi. Se as mulheres se conseguem sentir fortes ao lerem “Inferior” sinto que atingi o meu objectivo.

MBC – No fundo é essa a mensagem que quer passar no seu livro?
AS – Sim. Espero que as pessoas o leiam e que desafiem as suas bases. Quer sejam homens ou mulheres. Mas adorava que as mulheres se sentissem particularmente fortes com o que a ciência realmente diz sobre quem somos. Não somos aquelas criaturas fracas que durante décadas, séculos nos levaram a acreditar. Podemos fazer o que quisermos, ter uma sociedade mais igualitária e tudo o que necessitamos é tão simples como trabalhar em conjunto, lutar por esses direitos, quebrar de uma vez as barreiras políticas e culturais.

MBC – Mas concorda que em 2019, ainda temos que trabalhar o dobro dos homens para provar o nosso valor?
AS - As dificuldades que eu e outras mulheres cientistas ainda sentimos, não nos obriga somente a trabalhar duro para chegar onde estamos, temos que provar ao mundo que somos capazes de fazer o mesmo que os homens mostrando que é possível, normal. Provar que podemos ser as pessoas que pensam que não conseguimos ser. Existem camadas de barreiras com as quais lutamos o tempo todo. Temos que nos esforçar permanentemente para alcançarmos o mesmo estatuto dos homens. Para algumas mulheres, é mais fácil para outras mais difícil.

MBC – Durante a gravidez sentiu-se de alguma forma posta de lado?
AS - Antes de ter filhos trabalhava como repórter e tive que desistir porque me ocupava todos os dias em qualquer horário. Sabia que meu marido não iria desistir do trabalho dele, por isso quando tomei conscientemente a decisão de ter filhos, desisti desse trabalho e, foi nesse período que comecei a escrever. Não me arrependi da minha escolha, até porque tive que aprender a conciliar o meu trabalho com ser mãe. Mas gostava que a sociedade fosse estruturada de maneira a que as mulheres não tivessem que fazer estas escolhas o tempo todo. Penso que a maioria das indústrias ainda opera com base no princípio de que haverá sempre alguém em casa e, isso é realmente algo que precisamos alterar. Se não ficar ninguém em casa com as crianças como podemos dar o nosso melhor no nosso trabalho? E não falamos apenas das crianças. Falamos do trabalho doméstico, cozinhar, limpar, fazer compras e todas as outras coisas que necessitam de ser feitas. Uma casa tem que ser governada e isso também é trabalho.

MBC – No entanto na maior parte dos casos os melhores e mais bem remunerados
empregos continuam a ser entregues a homens.
AS - No Reino Unido, existe uma enorme diferença salarial. Penso que isso ainda é um problema e, que se deve a diversas razões. Em parte, o sexismo. Temos vencimentos inferiores fazendo exactamente o mesmo trabalho. Em parte, a própria história. Afinal o homem tem estado na força de trabalho há mais tempo e as mulheres desistem de trabalhar para terem filhos. Mas ainda temos um outro aspecto que a meu ver é muito mais complicado, quando as mulheres começam a fazer um trabalho são desvalorizadas, dou-lhe o exemplo da programação informática costumava ser um trabalho feito exclusivamente por mulheres por ser um trabalho enfadonho logo só uma mulher gostaria de o fazer. Mas de um momento para o outro a indústria tornou-se numa profissão altamente valorizada e as mulheres foram sendo lentamente excluídas e, agora os homens dizem que as mulheres não percebem de programação. Necessitamos de continuar a lutar para que uma mulher que faça exactamente o mesmo trabalho que um homem receba o mesmo. Ao mesmo tempo que damos mais valor a todo o outro trabalho que tradicionalmente fazemos.

MBC - O que pensa dos homens que ainda mantêm os melhores cargos de liderança?
AS - Acho que em posições de grande poder, damos ao homem muito mais espaço para fracassar do que damos às mulheres. Quando uma mulher falha, causa impacto em todas as mulheres, automaticamente está a prejudicar-nos a todas. Mas se um homem falhar, é aceitável. Ele é um indivíduo que teve o azar de falhar e nós perdoamos. Por isso sim, continuam a existir padrões diferentes.

MBC - Aos nossos leitores em Portugal que ainda não a conhecem porque ainda não leram os seus livros, como gostaria de apresentar “Inferior”?
AS - Gostaria de dizer a todas as pessoas que nos dizem que a igualdade é impossível porque somos naturalmente diferentes, que não há nada na biologia que diga que a igualdade não pode vencer. Antes pelo contrário devemos sentir-nos fortalecidas com essa constatação. Como disse, esta jornada mudou a minha vida e espero que mude vidas.


















Texto e Fotos: MBarreto Condado

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