sexta-feira, 4 de outubro de 2019

TU AMAS-ME?, de Fernando Teixeira















"– Tu amas-me?

A pergunta atingiu-o, tão inesperada e incompreensível como o ribombar de um trovão num dia soalheiro. Ficou atordoado, como se tivesse levado um murro seco no estômago. Sentiu-se colocado entre a espada e a parede, dividido entre a sinceridade e a negação da evidência.

Caminhavam de mãos dadas, sem que esse gesto significasse algo mais do que irem simplesmente com as mãos juntas, pelo menos não muito mais. Era como ele o sentia.

O passeio, naquele fim de tarde igual a tantos fins de outras tardes, igual a tantos outros passeios, davam-no ao longo da muralha da marginal que continha o rio, a essa hora em maré vazante, corrente sôfrega de chegar ao mar, água doce sequiosa de sal.

O silêncio – ou melhor, a ausência de diálogo entre ambos – foi reposto, igual ao que houvera antes daquelas duas palavras terem sido proferidas, quais duas balas certeiras. Não tão igual assim, pois deixara de ser inócuo. O ar ficara mais pesado e a brisa da tarde demasiado opressiva, disso não tinha ele qualquer dúvida, nem o poderia negar. Essa opressão prendia-lhe a mente e a voz. As pernas ficaram subitamente dormentes e os passos pareceram-lhe arrastados. Como o seu raciocínio. Não conseguia organizar um pensamento nem articular uma resposta, mas a pergunta exigia que a desse.

– Então, Vasco? Ouviste bem! Tu amas-me? – voltou ela à carga, o tom ligeiramente mais agreste. Como a brisa.

Novo estremecimento. Mais balas trespassando-o, com estrépito nos seus ouvidos, esvaziando-lhe o coração e enchendo-o de temor. O pânico a inundá-lo, como se depois do primeiro abalo telúrico tivesse surgido uma réplica, esta ainda mais forte, mais contundente.

Não se atrevia a olhar para a esposa, com receio de vê-la olhar para si e de lhe observar a interrogação nos olhos verdes, cravando-o. Qualquer mulher perceberia a resposta, vendo-lhe a angústia espelhada nos olhos e os movimentos da maçã-de-adão denunciando que engolia em seco.

Não se podia esconder nem esperar por uma terceira pergunta. Obedecendo ao instinto de defesa, iria optar pela negação dos seus sentimentos e evitar estragar o resto do dia, se não mesmo os dias seguintes. Procurou não baixar o olhar, convencendo-se de uma suposta força que não tinha. Continuou a olhar em frente e arriscou dizer, com a maior naturalidade de que foi capaz:

– Sabes bem que sim.

Num desassossego interior, ficou à espera de nova réplica. Instantes em que se sentiu sufocar por ter omitido a verdade, a sua verdade. Não teria conseguido dizer muito mais do que aquilo, porque a pouca força e naturalidade ter-se-iam esfumado numa voz embargada pelo nó na garganta. Breves instantes em que os demais transeuntes não eram mais do que vultos indistintos e em que ele já não sabia dizer se a maré vazava ou enchia. Já não ouvia o rumorejar das águas do rio contra a muralha, nem tão-pouco se apercebia do ruído dos carros na avenida próxima. Tão-pouco era capaz de continuar a apreciar o suave deslizar dos pequenos veleiros que bolinavam contra o vento, indiferentes ao seu drama.

Só ouviu uma voz amargurada, a seu lado, retorquir:

– Pois parece que não…"


in Por Entre As Brumas De Newfoundland

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