quinta-feira, 10 de outubro de 2019

CORAÇÃO PARTIDO AO MEIO, de Maria Cecília Garcia















Emigrar não é apenas sair de um lugar para outro. Emigrar é arrancar as raízes na esperança de que elas possam afincar-se numa outra terra. Emigrar é deixar tudo o que se ama na procura de uma vida melhor, é deixar na terra a família, os filhos, os pais e a paisagem. É deixar que se instale no coração a saudade. Emigrar é aprender a ser alguém que não se é.

O emigrante é quem melhor conhece o significado da palavra Saudade. A Saudade portuguesa, aquela palavra que não tem tradução literal em nenhum outro idioma e que só um português sabe sentir. Nos anos cinquenta famílias inteiras partiram para lugares dos quais apenas lhes conheciam o nome. 

“Nessa época, muitos imigrantes, sobretudo aqueles que tinham algumas posses, tinham o hábito de enviar as mulheres para a sua terra natal quando estas estavam grávidas, para que os filhos lá nascessem, mas depois de alguns meses, regressavam. Recordo que, numa ocasião, durante a celebração da missa, no momento da homilia, o sacerdote censurou este hábito, considerando que era uma ingratidão para com o país que os tinha acolhido tão bem e que nunca os tinha feito sentir-se estrangeiros.

Isso não aconteceu com os meus pais, pois todos os filhos nasceram naquela terra, sendo eu a única estrangeira. Desde sempre senti que aquele não era o meu lugar…, mas sei hoje que ainda não encontrei esse lugar. A casa onde habito não é casa onde moro.

Quem emigra sente-se sempre estrangeiro, mas, com o passar dos anos, todos dividem o seu coração.

Depois de algum tempo algo começa a mudar, a terra que os viu nascer é o lugar onde todos querem regressar, mas as recordações vão-se esfumando lentamente e as saudades são cada vez menos dolorosas, enquanto esse outro país se transforma no seu lar, onde os filhos crescem, onde a língua se mistura de uma forma desordenada e os ritmos se entranham no corpo juntamente com o calor que aquece os dias…

Para o meu pai foi mais fácil, ele não se sentia amargurado com a ideia de ficar naquele lugar, mas a minha mãe, tinha o coração partido ao meio.”



In: História em Pedacinhos -As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar

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