quarta-feira, 2 de outubro de 2019

ENTREVISTA | ESCRITORA E CRONISTA DO NOSSO JORNAL MARIA CECÍLIA GARCIA



"A emancipação que as mulheres procuravam afigurava-se-lhes como algo demoníaco que não podiam aceitar, pois punha em causa toda a sua vida"

MBC – Quem é a Maria Cecília?
MC- Sou uma mulher que aceitou a vida conforme ela se me apresentou e sempre fiz o melhor que conseguia.  Nasci no Jardim do Mar, uma aldeia linda onde habitam pouco mais de 200 almas. Aos seis anos fui para a América do Sul, mais concretamente para a Venezuela onde vivi toda a minha infância e adolescência. Aos 24 anos regressei à aldeia que me viu nascer, para completar o meu crescimento. Fui secretária, vendedora, costureira, comerciante, empregada numa cooperativa, e responsável de uma biblioteca itinerante, tudo isto na Madeira.
Com as voltas que a vida dá acabei por casar em Lisboa com um alfacinha de gema e fui mãe de dois filhos, um menino e uma menina.
Casei tarde e dediquei-me à família.  Guardei todos os meus outros sonhos à espera do dia em que pudesse realizar algum.  Um deles era escrever. Enquanto esperava, lia. Lia muito.
Mas na verdade escrevi sempre em segredo, pois descobri que ao colocar em palavras as alegrias e angústias, o coração aliviava.
Acredito que nunca é tarde.

MBC – Tens dois livros publicados com a Chiado Editora “História em Pedacinhos – As casas da
minha infância e os tempos de Chá sem Açúcar” e no passado mês de Dezembro “A Filha da Mãe, os bocadinhos que faltavam” queres falar-nos um pouco deles e de como te surgiu a ideia para os escreveres?
MC - Fui para a Venezuela com seis anos de idade, não conhecia o meu pai que tinha emigrado quando eu era ainda bebé. História em Pedacinhos conta esse reencontro. Não fui apenas para um novo país, fui para uma realidade muito diferente daquela que conhecia para encontrar o pai, um “pai-homem estranho”. Quase tudo nesse livro é passado na Venezuela, quando falo da Madeira é através das minhas recordações e, sobretudo, das lembranças da minha mãe. Recuo a um tempo anterior à minha existência. É um saltitar entre dois mundos e tempos diferentes.
 Na Filha da Mãe é quase tudo passado na Madeira, com alguns saltos para a Venezuela como forma de justificar algumas actitudes da jovem mulher. Nos dois livros tanto a Madeira como a Venezuela estão presentes. É um livro leve, onde as tragédias se transformam em momentos de aventura.

MBC – Nasceste na Madeira e emigraste muito jovem com os teus pais para a Venezuela, e os teus livros desenrolam-se na Madeira porque não na Venezuela?
MC – O livro História em Pedacinhos foi escrito como o nome indica, em pedacinhos, ao longo de vários anos. A ideia era fazer um caderno de recordações, contar episódios da vida dos meus pais que os meus irmãos mais novos desconheciam. Considerava que era uma época muito interessante e gostaria que todos eles pudessem conhecer. No entanto, depois de tudo organizado e com uma sequência lógica, percebi que talvez, desse um bom livro. E assim, por impulso, com muitas dúvidas, enviei para a editora Chiado, que me fez uma proposta de edição que aceitei.
História em Pedacinhos é narrada por uma criança que observa e relata à sua maneira, as desventuras familiares. É uma história de emigração, fala de saudade e adaptação a uma nova forma de vida, fala de decepção, de sonhos perdidos e da constante luta parar manter as tradições. Mas fala também desse novo mundo, esse novo país, a Venezuela, onde cresceu.
A Filha da Mãe surgiu como uma necessidade de dar resposta aos leitores que perguntavam o que tinha acontecido àquela menina. A Filha da Mãe é aquela menina que aprende a ser mulher.
A Filha da Mãe é o avesso da emigração, é um regresso ás origens, ao lugar que deixou na infância, à sua antiga casa, mas é sobretudo o seu crescimento interior, a liberdade, a vida real. O corte do cordão umbilical.
“História em Pedacinhos” apenas sugere os lugares e poucos personagens têm nome, na “A Filha da Mãe” decidi dizer os nomes de algumas pessoas e lugares, particularmente da aldeia, tornando a história mais autêntica.
“História em Pedacinhos” termina quando se inicia uma viagem. “A Filha da Mãe” já apanha o final dessa viagem.
Não se trata apenas de um exercício egocêntrico, não os considero uma biografia, mas sim uma autobiografia na medida em que é baseado em acontecimentos reais, estes livros são um pretexto para falar de pessoas, lugares e acontecimentos que ajudaram a moldar uma nova mulher.  Como digo no final, antes de iniciar uma outra viagem:
” …. Deixo a ilha, mas vou moldada, esculpida, mesmo que de uma forma incompleta e imperfeita…” cada chegada é sempre um ponto de partida.
Embora os personagens principais sejam os mesmos, cada um dos livros pode ser lido independentemente, mas é claro, quem lê o primeiro “História em Pedacinhos” vai entender melhor “A Filha da Mãe”.

MBC – Devido às diferenças culturais entre os dois países achas que os teus livros seriam muito
diferentes se os tivesses escrito com a Venezuela como pano de fundo ou a base deles reside na educação portuguesa, independentemente do pais onde se encontre?
MC – Creio que se trata do modo de vida, a educação, as raízes. É o problema da emigração que divide o coração e faz com que as pessoas a certa altura já não saibam muito bem de onde são. Não sei como seria se o tivesse escrito na Venezuela, mas acredito que seria bem diferente se não tivesse voltado à ilha.

MBC – Em que género te enquadras enquanto escritora?
MC – Realmente não sei em que género me enquadro. A editora colocou-me na colecção Viagens na Ficção.

MBC – Tens alguma nova história para o próximo ano já em andamento?
MC - Tenho dois livros em andamento e não sei qual estará terminado primeiro. Ambos fogem ao registo dos livros que já publiquei. Arrisco no romance, veremos o que vai sair! E mais não digo, pois não sei o que vai acontecer!

MBC – Onde é que os leitores podem adquirir os teus livros?
MC - Os meus livros podem ser adquiridos na Chiado Books online, assim como nas livrarias Bertrand, por encomenda ao balcão ou online, na Wook, e nas FNAC online. Também em algumas livrarias tradicionais, como a Livraria Esperança, no Funchal.

MBC – Queres deixar-nos os teus contactos nas redes sociais para que os leitores possam seguir o teu trabalho?
MC - Podem visitar-me nas minhas páginas do Facebook:
Ou podem encontrar-me na Goodreads e ver as Reviews em:

MBC – Tens algo que gostarias de dizer aos teus leitores bem como àqueles que te ficaram a
conhecer um pouco melhor depois desta entrevista?
MC - Aos leitores só peço que comprem e leiam os meus livros, tenho a certeza que irão gostar. E que aproveitem e deixem as vossas opiniões, por mensagem privada ou nos comentários das páginas.
Mas sobretudo, leiam, por favor leiam muito.
Aproveito para desejar um bom 2019!



“Era só um amigo e aquele beijo foi uma coisa tonta e sensaborona”







Obrigada Maria Cecília pela tua escrita, pela disponibilidade, força, experiência mas sobretudo pela tua amizade e alegria.


Texto: MBarreto Condado
Fotos: gentilmente disponibilizadas pela autora


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