quinta-feira, 31 de outubro de 2019

NOCTURNO ARCO-ÍRIS: A SOLUÇÃO CIPRIOTA, de Helder Menor
















O homem que escolheram para ser presidente, não tinha nem teria descendência. Biologicamente falando.

Quando o escolheram, ainda não era casado e não se conheciam amantes. Na realidade, o escolhido, apesar de jovem, não sentia desejo por mulheres. Nem por homens. Mas isso era um segredo dele. Nunca sentiu o apelo sexual. Vivia sem desejos no corpo. As suas ambições políticas eram tão pesadas, densas e carnais e vieram tão cedo na sua vida, que desde muito novo despendia todas as suas energias na construção do seu sonho pessoal que se juntou ao sonho coletivo de criar um país. Primeiro, na luta pela independência, depois, na consolidação da república.

Era ainda muito novo e já se destacava como a mais brilhante figura do movimento. Fizera uma carreira fulgurante, primeiro na mata, depois na universidade em Moscovo. Ao contrário de outro, não estudou em Lisboa, não se contaminando com a indolência viciosa do colono. Voltara meses antes da independência. O seu trabalho e a sua capacidade calma de resolver os problemas mais bicudos, ouvindo todos, fazia dele o líder incontestável. Naturalmente, todos os setores o acolheram como presidente ainda antes de o ser.

Não tinha filhos, nem mulher. Mas com a vida que ele levava fechado no gabinete até às tantas quem podia ter tempo para namoros? Também não havia boatos sobre uma possível homossexualidade.

O certo é que as pessoas estranhavam o facto de já ter trinta anos e de não ter filhos. Os anos setenta do século XX iam a caminho do fim.

Os grandes do regime que manobravam na sombra, foram falar com ele.

– Precisas de ter filhos, Presidente.

Precisas de ter filhos, legítimos e ilegítimos. Feitos na mulher e nas amantes. Um presidente para ser presidente do nosso povo tem de mostrar que é um povoador destes matos. Um presidente tem de ter filhos, e muitos, aos molhos. É preciso ser um civilizador e se queres ser um criador do Novo Homem, tens de começar em casa criando filhos. Mostrar através das crianças nascidas a fertilidade e a vitalidade da presidência.

O presidente, homem inteligente, argumentou que era dever de todos os dirigentes educar o povo e acabar com essas mentalidades machistas e sexistas. Os dois conselheiros, mais velhos e mais sábios, disseram-lhe que tinha razão. Mas também lhe disseram que se queria continuar a ser um líder incontestável, tinha de casar-se e ter filhos. Também eles tinham razão.

– Mas eu nem tenho mulher...

– Isso arranja-se! O que não falta são mulheres prontas para serem primeira-dama. Tem é de ser alguém de dentro do partido e que venha das famílias tradicionais. Precisamos de uma primeira-dama consensual.

Na semana seguinte, trouxeram-lhe a noiva para amostra. Não desgostaram um do outro, antes pelo contrário. Simpatizaram à primeira. Sorriram e falaram. Ambos tinha estudado na União Soviética. Na primavera anunciaram na rádio nacional o casamento. Meses depois, no registo civil da capital, porque eram ambos assumidamente ateus e marxistas num regime construído no sólido betão ideológico do materialista científico. Num sábado de manhã, o presidencial noivo assinou o contrato que determina as regras de vida em comum com a escolhida para primeira-dama e toda a jovem república festejou. Nova, negra, médica, bonita, inteligente e militante, filha de militantes e neta de históricos independentistas. Linhagem de famílias tradicionais negras, com um passado tão impoluto como a sua farda branca, pronta a dar nobre descendência à república popular.

O casamento aconteceu na maior farra, como seria de esperar. Houve distribuição pública de vinho e comezainas variadas. Nessa noite, o presidente e a primeira-dama, dormiram juntos pela primeira vez, e desta vez, no estado de casados. Casados um com o outro, entenda-se e não se levantem questiúnculas de português, essa traiçoeira herança de colono com que nos escrevemos e nos lemos uns aos outros. Tiveram nessa noite de núpcias, um serão que durou até ser manhã de intimidades partilhadas e segredos.

Ele porque gostava dela, tanto como lhe era possível gostar de outra pessoa que não dele mesmo, disse-lhe com calma e honestidade:

– Sabes, sou impotente.

Ela médica, desdramatizou, e também assumiu desde esse momento uma total honestidade para com ele.

– Já desconfiava, nunca tentaste nada e sei que não sou feia. Também não achei que gostasses de homens. Percebi que não sentes desejo. E isso, não é ser impotente, é simplesmente não sentir desejo.

– Mas é que eu não tenho desejo, nem o coisa se levanta... de resto, nunca se levantou....O que também te digo, não sinto como um problema pessoal... mas é sem dúvida um problema para nós como casal, e mais tarde ou mais cedo, um problema político.

– Comigo, não te preocupes, sou lésbica e fico aliviada com isso ser assim! Em relação à política, sempre ouvi os mais velhos dizerem, que enquanto os problemas não gritarem para serem resolvidos, não são problemas, são condições! E esta condição, não grita! O que grita agora é a fome que do banquete não comi nada!!!!

Ele riu e pediu vodka, pão e caviar, combinação de coisas que ambos gostavam. As confidências prosseguiram noite fora. À luz acesa do candeeiro da presidencial mesa de cabeceira a conversa corrida em intimidades e partilhas. Falaram até de manhã. Falaram deles próprios e do mundo. Falaram do que o mundo queria para eles e do que eles queriam do mundo. Eram os dois igualmente inteligentes, tímidos, cultos e ambos tinham um amargo sentido de humor que os fazia rir das próprias misérias pessoais. Foi uma noite de núpcias animada, emocionalmente intensa e divertida. Eram ambos do tipo solitário-social e a ambos soube bem a partilha.

A malta da segurança que estava à porta do quarto, no outro dia de manhã, relatou aos poderosos que mandavam, que até ao raiar do dia se ouviam gargalhadas e cochichos. Relataram também que o casal presidencial bebeu duas garrafas de vodka e que comeram quatro latas de caviar, um pão inteiro e ainda toda a fruta que ficou no quarto.

Na manhã seguinte, os noivos apareceram próximo do meio-dia, unidos, sorridentes e confiantes. Sem ressacas porque o vodka era do bom. Aquela noite de núpcias passada a falar, a beber e a comer, selaria o casamento africano de aço soviético. Um casamento com uma cumplicidade à prova de fogo. Uma noite de núpcias como deviam ser todas as noites de núpcias que serviu para construir uma amizade e uma admiração recíproca tão sincera e pura que não exageramos se lhe chamarmos de um grande amor para a vida.

O primeiro ano voou e o casal continuava a aparecer junto, feliz e apaixonado.
Mas nada de filhos.

– Dêem-lhes tempo, diziam os tais conselheiros poderosos que viviam, bebiam, respiravam e transpiravam a política do regime.

As pessoas deram tempo...

Acabado o segundo ano de casados, começaram a falar.

No terceiro ano de casados, os tais sábios poderosos foram ter a inevitável conversa séria com o presidente. Que até era um bom presidente. Que o povo o adorava a ele e à primeira dama. Que perante as dificuldades conseguia gerir e aguentar... Mas porra, enfim, estava na hora de ter filhos!

O presidente, perante as insistências dos sábios conselheiros, fez o que tinha a fazer: contou a verdade científica, com a ideia de ganhar tempo.

Ficaram possessos.

Um presidente não pode ser impotente! Um presidente tem de ser um exemplo acabado de virilidade. Tem de ser uma espécie de Don Juan. Ainda mais um jovem presidente negro de uma recente república africana, acumulando assim os estereótipos.

Não! O presidente não podia ser impotente.

– O que vamos dizer aos microfones da rádio nacional???

Perante a reação histérica dos sábios conselheiros, o presidente ficou calado a sorrir, imaginando que lhes podia sempre responder:

– Diz isso aqui ao meu presidencial microfone que pode ser que ele se levante para te ouvir falar!!!

Mas a inteligência, dignidade e educação mantiveram a sua boca fechada. Calou-se, sorriu e esperou que a raiva passasse.

Depois, devolveu a questão: senhores conselheiros, meus camaradas e amigos, como é que me podem ajudar nesta questão?

Os conselheiros ainda sopraram o nome da primeira-dama para ajudar... uma vez que é médica...

O presidente cortou a direito.

– Tirem a minha mulher da questão, ainda mais do que eu, é uma vítima inocente em toda esta situação e não admito que a envolvam.

Os conselheiros calaram e não voltaram a falar na primeira-dama.

Reuniram de emergência. Primeiro falaram uns com os outros. De conselheiros para conselheiros. Entre amigos do quintal, primos e parentes.

Depois mandaram vir os que tinham estudado no estrangeiro. A seguir, ouviram os que vieram da mata. Voltaram a ouvir-se outra vez uns aos outros.

Depois, ouviram os cubanos. E claro que foram ouvir os russos.

Por essa altura, chegou também um negro americano músico de jazz para tocar na jovem república e com ele trazia um baterista que era da CIA. Como espião era fraquito, pois toda a gente sabia que o gajo era espião, mas como baterista não era mau. Também foram ouvir o americano sobre o drama da impossibilidade presidencial. O baterista deu palpites e ofereceu-se para arranjar as coisas e levar secretamente o presidente aos states a uma clínica da NASA onde tratam os astronautas. 

Quando os conselheiros lhe disseram que os americanos o estavam a convidar para ir lá no médico, o presidente zangou-se e cortou dizendo que não queria nada com os americanos. Disse mentindo que era uma situação médica e não política.

Começaram a chegar os médicos. Discretos e em segredo. Vinham ao final da tarde ao gabinete presidencial, consultar, analisar e avaliar o preguiçoso presidencial membro. 

Primeiro, vieram os médicos nacionais. Os de confiança. Depois, os médicos cubanos que são os melhores do mundo. Depois vieram os russos com a sua tecnologia e os seus cadernos escritos em cirílico. Veio também um médico francês, mas demorou-se na manipulação e o presidente não o quis mais dentro do palácio.

Foi então que o Fidel lhe ligou. Directamente para a linha privada, se protocolos nem diplomatas.

Era quase meia-noite. Ficaram a falar até quase às duas da manhã, primeiro sérios e formais depois os dois descontraídos a rirem à gargalhada entre ataques de tosse do cubano. El Comandante sugeriu até um certa senhora enfermeira de Bayamo que lhe podia dar uma milagrosa mãozinha e até parece que tinha bastante jeito para a coisa.

A primeira-dama chateou-se com o telefonema. Não por ciúmes da enfermeira de Bayamo, mas por dignidade de esposa ferida. Alem do mais estava sentada ao lado a tentar escrever cartas em cirílico para uma amiga especial, também ela médica, cipriota, companheira de quarto, com quem viveu cinco anos na residência universitária em Moscovo. As gargalhadas do marido e do Fidel não a deixavam concentrar-se no necessário esforço de caligrafia e no desenho de cada letra.

Foi ela, primeira-dama, amiga, camarada e médica quem propôs:

– Despacha lá o gajo e diz que não precisas de mãozinhas!!!  Prá semana vamos de férias para o mato descansar e pode ser que na medicina tradicional se possa resolver isso!

– Queres levar-me à bruxa!!! Só me faltava mais isso... seja!

Riram e depois dormiram. Mas foi como ela disse. Na semana seguinte, o presidente foi ter com uma senhora. A curandeira ainda era parente da mulher e ele quando a viu, coisa rara, confiou instantaneamente. Contou-lhe tudo. Do problema, que para ele não era problema. Contou-lhe que ele não sentia essa necessidade, mas contou da gravidade política da situação.

A mulher velha, negra e pequenina, fumando cachimbo e ocasionalmente cuspindo no chão, ouviu tudo com muita atenção.

Depois disse:

– Filho, tu esgotaste a força. Puseste toda a semente de seres pai nesta terra vasta. Tu és pai de um país. Tu engravidaste a terra e terra pariu a gente. Ajudaste a libertar o povo e fizeste fugir o colono... depois foste pai de todos. A Terra Mãe deixou que fizesses isso porque também se apaixonou por ti. Apaixonou-se pelo teu querer. Foram muitos os espíritos dos mortos aqui enterrados que ela fez levantar para te ajudar a fazer nascer o país. A Terra Mãe acordou-os para ti. Mas a Terra Mãe, é também mulher e como mulher que é tem ciúmes. Tem ciúmes e não deixa que tenhas mais filhos. Por isso, nem médicos nem feiticeiros podem ajudar. O teu destino é partires tarde e velho, mas filhos porque é a Terra Mãe quem é tua esposa.

– Mas tiazinha, minha mais velha, um presidente tem de fazer filhos na mulher e nas amantes, é assim que deve ser...

– Mas meu filho, meu menino presidente, não tem problema, se tu não podes fazer, arranja-se alguém que faça! Tem muitos aí prontos a fazerem os filhos por ti. Isso nunca foi problema! Para fazer filhos sempre aparece, para ser pai é que nem sempre!!! Pai é quem educa, não é quem faz!!!!

E tinha razão a velha.

Semanas depois das férias presidenciais nas províncias remotas, chegou à capital uma médica cipriota. Veio recomendada pela presidência para fazer um estudo sobre genética.

Nos quartéis da capital vinha mensalmente uma equipa discreta, dirigida pela cipriota com mais dois médicos militares que traziam uma geleira com frascos. Os soldados que se destacavam nas provas físicas, eram convidados a aliviarem o seu desejo manualmente para dentro do frasco. Eram as recolhas de sémen para um estudo e análises sobre o ADN dos militares. Segredo de estado quem falasse no assunto ia colocado directamente na mata funda.

A médica cooperante cipriota que coordenava o projeto do estudo sobre o ADN era também, por coincidência, a melhor amiga e inseparável da primeira-dama. A alegria do reencontro com a velha amiga fez o milagre: passada seis meses de ter chegado a cooperante cipriota, a primeira-dama ficou grávida.

Nos primeiros anos da década de oitenta o casal presidencial teve os filhos. Quatro. Duas meninas e dois meninos. 

Todos eles lindos como a mãe e dignos e providenciáveis como o pai.

A médica cipriota e a primeira-dama continuaram as melhores e mais inseparáveis amigas. Costumavam ir de férias juntas. As crianças sempre gostaram de ficar pelo palácio. Os rapazes muito focados no desporto e nas armas. As meninas mais contidas e estudiosas. Sobretudo a filha mais velha. Linda como a mãe, ambiciosa como aquele que a educou e presidenciável como o anónimo soldado que se manipulava na caserna fantasiando conquistas.




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