sábado, 26 de outubro de 2019

PEQUENOS FELINOS, de Fernando Teixeira















“Fazia-lhe companhia há duas semanas. Havia-o encontrado durante um passeio que dera a pé, ao longo de um trilho estreito de terra batida, junto ao mar.

Parara por instantes, de costas voltadas para terra como se quisesse voltar as costas aos pensamentos que não o largavam desde que chegara àquela povoação francesa, suficientemente bucólica e merecedora de que estivesse ali em paz de espírito.

Observava o mar com o olhar perdido no horizonte e o peso de uma vida sobre os ombros, não que fosse um velho, porém os seus sessenta e cinco anos ninguém lhos tirava e o peso maior talvez fosse a vida cheia de contrastes, de sucessos e infortúnios, de alegrias e tristezas, de boas e más decisões…Na quietude do campo, apenas perturbada pelo marulhar das águas contra as rochas, apercebeu-se de um ligeiro miar atrás de si. Rodou o corpo e viu três gatitos, ainda crias. O gesto brusco fez com que dois dos animais fugissem num ápice, escondendo-se na vegetação rasteira. Mal lhes vira a cor, talvez entre o bege e o cinzento-claro…

O terceiro ficara a um passo dele, olhando-o fixamente, com as patas dianteiras fincadas no solo e as orelhas espetadas, numa primeira atitude de defesa. Era um pequenino gato malhado nas cores branco, amarelo e preto. Seria de alguma das habitações situadas a mais de trezentos metros? A hipótese de ser um gato fugitivo teria alguma força se ele andasse por ali sozinho. No entanto, os três animais tinham surgido juntos e mais pareciam gatos de rua. Algo no seu aspecto lhe deu a sensação que devia ser um gato selvagem, mais do que um gato doméstico.

Menos tempo demorou nestas conjecturas do que o instinto do pequeno felino. Percebendo que daquele humano não viria grande perigo para a sua existência, fez as suas patas dar duas passadas hesitantes, primeiro, e depois outras mais decididas de encontro às pernas dele, onde procurou acolhimento, roçando-se com débeis miados.

Não era inexperiente com animais. Os seus avós tinham tido dois Rafeiros do Alentejo, um branco e preto e, mais tarde, outro castanho, que eram os cães de guarda da quinta. Quando criança, lembrava-se de o avô ter permitido que três gatos se tivessem juntado à família, com a promessa, e como prémio, de ele e as duas irmãs terem bons resultados na escola. Um para cada um, para não guerrearem entre si com ciúmes!

Nunca se esquecera do nome dos animais, atribuído por motivos comezinhos que lhes estavam relacionados. Uma fêmea e dois machos: a fêmea, maioritariamente preta com a ponta das patas em branco, tinha o nome de Manta Rota porque rompera a manta de ourelos que cobria a cama da sua irmã Leonor, logo no primeiro dia em que entrou em casa; um dos machos, de cor branca, chamava-se Cortiço por ter ido lamber restos de um favo de mel deixado no chão, acabando por ser picado por abelhas e aparecer com o pêlo do focinho todo empastelado; finalmente, o terceiro, um gato tigrado amarelo, o que tinha no seu entender o nome mais engraçado, ou não fosse o seu gato e não tivesse sido ele a dar-lhe o nome, depois de o marafado aparecer em casa ao segundo dia a espirrar e todo ele mais branco do que amarelo, por se ter andado a rebolar num monte de farinha, num canto do celeiro. Chamara-lhe Pó-de-Giz!

A breve memória dos gatos da sua infância, provavelmente catalisada pela curiosa simbiose da cor dos três naquele pequeno ser, e um episódio anterior fizeram-no curvar-se lentamente, para não o assustar, e estender a mão mais devagar ainda, dando-a a cheirar antes de tentar fazer-lhe uma festa na cabeça.

Ao sentir a sua mão ali tão perto, o pequeno felino tomou-lhe o cheiro em duas inspirações, para logo erguer o focinho contra a mão e esticar o pescoço, forçando uma festa na cabeça. Ele, surpreendido com tamanha docilidade, inusitada num gato selvagem, afagou-lhe a cabeça e prolongou a carícia ao longo do dorso, que viu arquear, até lhe chegar à cauda hirta, erguida no ar. O gato, sentindo o toque afectuoso, rendeu-se à pessoa que o acariciava, continuando a roçar-se em torno das suas pernas e volteando como se estivesse a descrever oitos no chão.”


in Traços de Pont-Aven

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