segunda-feira, 7 de outubro de 2019

REENCONTRO, de Fernando Teixeira















A vida sempre se encarrega de nos maravilhar com surpresas e coincidências admiráveis. Como autor, sou testemunha de várias situações em que a actividade de escrever enredos de ficção mostra como essas coincidências nos podem surpreender e admirar. É um desses casos que vou contar.

Eram três horas e meia da madrugada quando dei a narrativa de um novo livro por terminada. Com o título Traços de Pont-Aven, trata-se de um romance que conta a história de um homem que procura o paradeiro do filho em terras da Bretanha, um filho com quem ele já não se relaciona há vinte anos, por circunstâncias da vida e devido a um erro cometido no passado. Uma história cuja temática principal é a tentativa de aproximação e de reencontro entre pessoas, após décadas de separação.

Com a alma cheia de regozijo pela conclusão de mais uma obra literária, desliguei o computador e preparava-me para finalmente recolher à cama, a fim de dormir um sono necessariamente mais curto. Por descargo de consciência, dei uma última olhadela ao telemóvel e vejo que tenho três novas entradas no Messenger. Pelas fotos associadas, vejo que foram enviadas por duas mulheres relativamente novas e por uma outra de mais idade. Não reconheço os nomes e penso que se trata de pessoas que querem simplesmente meter conversa.

Ainda assim, abri a primeira das mensagens e tive a primeira surpresa. Quem a tinha escrito afirmava ser a filha mais nova de uns antigos vizinhos meus, há décadas imigrados e vivendo nos Estados Unidos da América. Dizia que se lembrava de mim, dos meus pais e do meu irmão, e que o seu pai, tendo lido um dos livros que publiquei até à data, desejava contactar comigo. Isto, num Português quase perfeito para uma americana. A segunda mensagem era apenas um “aceno” da irmã daquela. Quanto à terceira, havia sido enviada através do Messenger da mãe das duas raparigas, embora depois eu tenha percebido que tinha sido esse meu vizinho a escrevê-la e não a esposa.

Em posteriores contactos, soube que uma das filhas costuma comprar e enviar livros escritos em Português para o pai que vive distante, num outro Estado americano. Nenhum deles sabia que eu era autor de romances de ficção, uma vez que perdemos o contacto há cerca de trinta anos e, quando muito, teriam a ideia verdadeira de que a minha formação académica era em Engenharia!

Como de outras vezes, essa filha comprou recentemente um livro na Amazon com tal propósito. Imagine-se agora que por incrível coincidência, e de entre todos os títulos em Português disponíveis naquela plataforma, aleatoriamente ela “acerta” logo no meu romance, comprando-o e endereçando-o para o progenitor. Qual a probabilidade de isto acontecer? O meu antigo vizinho lê integralmente o livro e só no fim, passando pela biografia do autor com fotografia, descobre de quem se trata, dando um grito de surpresa. Corre a telefonar às filhas, chorando de emoção e de alegria porque o autor era eu! O resto já se conhece…

O que isto tem de extraordinário é que, recorde-se a temática do livro que tinha acabado de escrever nessa noite, eu já não me relacionava com estas pessoas há três décadas, simplesmente porque lhes havia perdido o paradeiro numa altura em que a facilidade de comunicação não era o que é nos tempos actuais. E, como que um reflexo da ficção para a vida real, naquele preciso momento dava-se aquele gratificante reencontro, ao fim de tanto tempo!

Escusado será dizer que a alegria de ter terminado a escrita do livro foi exponenciada por este acontecimento e passou a ter um significado maior. Estas coincidências admiráveis acrescentam tempero ao trabalho de um autor e são tão, tão gratificantes!

Está prometido um encontro quando estes luso-americanos vierem de férias a Portugal, em Setembro. Temos muita conversa para pôr em dia…

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