segunda-feira, 7 de outubro de 2019

ENTREVISTA | ESCRITOR JACK LEWIS


Entrevista a Jack Lewis autor do livro, A CIÊNCIA DO PECADO / Edições Desassossego
(Orgulho, Gula, Luxúria, Preguiça, Avareza, Inveja, Ira)

“Para permanecermos nas boas graças das outras pessoas, devemos receber elogios com aparente humildade – mesmo que o nosso coração esteja pleno de arrogância, fel e orgulho”

Quisemos conhecer melhor Jack Lewis, o neurobiólogo e apresentador de televisão. Agnóstico confesso, que em criança adorava cantar no coro da Igreja. E foi numa conversa descontraída que nos explicou o que o motiva, a razão que o levou a escrever este livro e, porque o devemos ler.

MBC - Todos os dias enfrentamos uma batalha interna para nos mantermos afastados das tentações. Na sua opinião quais são as consequências se cedermos a algum dos sete pecados mortais?
JL - Sabendo que em última análise leva a consequências anti-sociais. Se alguém é muito orgulhoso, preguiçoso, zangado, invejoso, as pessoas ao seu redor acabam por se sentir entediadas e simplesmente afastam-se por não quererem perder o seu tempo com uma pessoa assim.

MBC – Algum dos sete pecados mortais se sobrepõe aos demais?
JL – Não! São todos preocupantes e a melhor maneira de os manter sob controle é lembrarmo-nos que as conexões sociais não são apenas agradáveis de ter, mas também vitais para a nossa saúde física e mental.

MBC – É possível encontrarmos esse equilíbrio?
JL – Sim se forem levados em moderação.

MBC – É possível fazê-lo sem cairmos em tentação em alguma parte do caminho?
JL - A tentação é boa para o nosso bem-estar, mas levada aos extremos torna-se anti-social, e se nos deixarmos arrastar por qualquer uma delas corremos o risco de perder as nossas conexões sociais.

MBC - Na Gula em particular pensa existir uma solução para controlarmos os nossos impulsos?
JL – Em relação à comida, resistir à tentação torna-se mais difícil. Durante milhares de anos os humanos viveram numa situação em que não sabiam quando conseguiriam arranjar comida e, se a mesma seria suficiente. Muitos morriam de fome. Mas é evidente que agora o ambiente mudou, há o suficiente para todos e, como temos comida em abundância. adoptámos uma abordagem um pouco diferente.

MBC – É verdade que existe abundância, mas isso também não traz forçosamente benefícios e, estou a pensar nas diversas doenças associadas aos excessos.
JL – É verdade que para quem sofre de Gula, existem uma série de inflamações associadas não só ao corpo, mas também ao cérebro. Temos as alterações de humor, o colesterol elevado, só para falar de alguns problemas. A nível do cérebro a inflamação começa a limitar as capacidades cognitivas, começamos a pensar mais lentamente, torna-se difícil solucionar problemas e, na meia-idade o cérebro será o de alguém com pelo menos mais dez anos do que a sua idade real.

MBC – O que podemos fazer para conseguir controlar os nossos impulsos, concretamente em relação à Gula?
JL – A melhor maneira de tentar refrear essa tentação é perceber que há uma enorme conspiração multinacional. As grandes empresas de alimentos publicitam anúncios de uma forma que faz com que o consumo pareça perfeitamente normal e com as campanhas que promovem aumentam-no substancialmente para obterem lucro. O problema é que os principais consumidores são cada vez mais jovens.

MBC – Concorda que se consume mais do que o necessário. O que podemos fazer para combater essas grandes companhias?
JL – Esta é a nossa presente realidade. Para as grandes companhias, os consumidores fazem esse consumo numa quantidade que para eles é considerada perfeitamente normal. Mas, se perguntar a um médico, a maioria dos produtos são demasiado calóricos. Só para que veja a que nível já sofremos uma lavagem cerebral dou-lhe como exemplo uma lata de Coca-Cola, de Pepsi. Se tiver mais de onze anos uma só lata tem o açúcar necessário de que necessita para um dia inteiro.

MBC – Mas o açúcar também nos faz falta. Em que medida podemos medir o que consumimos?
JL - Se praticar muito desporto pode ingerir essas quantidades de açúcar. Além do mais é verdade que o nosso cérebro necessita de muito açúcar quer esteja em repouso ou a pensar. Mas, mesmo assim não consegue queimar todo o açúcar contido em quatro latas de refrigerante. Sem falarmos que rotineiramente as pessoas adicionam açúcar ao chá, ao café, e não nos podemos esquecer de que na maior parte das vezes ainda acompanham estas bebidas com uma sobremesa. Com cada café um pastel de nata.

MBC – Possivelmente a maioria das pessoas não tem noção do que me acabou de dizer.
JL - Garanto-lhe que as pessoas ficam atordoadas quando são confrontadas com esta realidade.

MBC – Achei interessante que falasse do café com o Pastel de Nata. Até porque a maioria dos portugueses tem realmente esse hábito. O Jack das vezes que esteve no nosso país já se terá convertido à nossa doçaria?
JL – A verdade é que em Londres temos uma excelente pastelaria portuguesa. E sim confesso ser um grande apreciador do Pastel de Nata.

MBC – Ainda existirá alguma maneira de reverter o controle que as grandes companhias exercem sobre nós?
JL – Neste momento só uma revolução poderia alterar esta situação.

MBC – O que pensa em relação a fast-food e, aos suplementos alimentares?
JL – Como em tudo na nossa vida o segredo está na moderação, nada em excesso.

MBC – Algum destes pecados se aplica particularmente a si?
JL – Todos! Mas com a moderação de que tenho falado tento sempre evitar ao máximo os excessos.

MBC – Mas terá certamente algum que se destaque?
JL – O que sempre mais me preocupou foi o Orgulho. Sempre fui muito inteligente em todo o meu percurso escolar, um bom desportista. Recebia regularmente elogios que me enchiam o ego e, chegou uma altura na minha vida em que fiquei preocupado. Temia que os meus feitos me pudessem transformar em alguém arrogante, que me considerasse melhor do que todos. Isto fez com que lutasse arduamente para não seguir por esse caminho. Cheguei inclusive a fazer um teste para ver se teria uma personalidade narcisista e, confesso que fiquei espantado por os resultados terem apresentado valores inferiores.
Mas, também sofro de Gula. Como a maioria das pessoas encontro um enorme prazer na comida. No entanto comecei recentemente a fazer muito exercício pelo que consegui encontrar um equilíbrio para compensar tudo o que ingiro.

MBC – Disse que praticou desporto durante o seu percurso escolar, no entanto vi um vídeo que colocou no seu site em que está numa sessão de exercícios de cansar qualquer um.
JL – Sempre pratiquei enquanto estive na escola depois parei. Mas em Janeiro deste ano estive na Tailândia, fui convidado a ficar em casa de um conhecido que como está desempregado está permanentemente a fazer exercício, principalmente de manhã e, sempre durante mais de uma hora seguida. A única condição que me impôs para ficar na sua casa, como seu convidado, era que fizesse exercício com ele. O pior ao início é que se tentasse colocar açúcar no meu café ele contrariava afirmando que dessa forma destruía a capacidade do meu corpo queimar gordura. Por isso durante esse período o meu pequeno-almoço passou a ser só café preto. Mas, a verdade é que o meu corpo mudou e perdi toda a gordura que tinha acumulada. Quando regressei a casa continuei a seguir os mesmos métodos e, agora não preciso de café da manhã até depois do meio-dia.

MBC – Sei que pratica Surf. Como consegue ter energia fazendo jejum?
JL – Estranhamente nunca pensei que fosse possível, mas a verdade é que me basta café simples e forte sem açúcar. O nosso corpo num período de doze horas sem ser alimentado, nas primeiras dez horas já perdeu todos os carboidratos de reposição e então começa a queimar gordura nas duas horas seguintes. É uma excelente forma de manter o corpo regenerado. Isto significa apenas que continuo a comer a mesma comida, mas em vez de o fazer em dezasseis horas, como num espaço de doze horas.

MBC – Neste momento da sua vida escreve livros e faz programas de televisão. Abandonou definitivamente a investigação na sua área da Neurociência?
JL – A verdade é que já não faço pesquisa, neste momento limito-me a ler as pesquisas dos meus colegas. Escrevo livros e faço televisão porque é algo que me satisfaz, mas como pagam pouco sou ainda Consultor e Orador motivacional, o que me permite viajar regularmente através de Inglaterra.

MBC – Apenas em Inglaterra?
JL – Já fui solicitado na Europa, mas ainda é raro. Numa média faço duas palestras na Europa e vinte em Inglaterra. Ainda na semana passada estive em Brighton, depois na costa sul, depois em Norwich na costa leste, na semana anterior em Yorkshire, depois na Escócia, e na semana anterior no País de Gales. Estou permanentemente em movimento com uma mala preparada para embarcar no próximo comboio.

MBC – O que o faz vibrar?
JL – Adoro particularmente o trabalho que faço com os professores, que por sua vez trabalham com crianças problemáticas. Crianças, que vivem em situações de miséria extrema, um pai com uma doença mental, alcoolismo, entre tantos outros problemas, tornando-as vulneráveis. Eu falo com os professores sobre neurociência, resiliência, da diferença entre uma criança que pode passar por enormes quantidades de stress e que não acaba por desenvolver nenhuma doença mental comparando-as àquelas que desenvolvem e, o que podemos fazer.
No fundo em conjunto com eles, ajudamos estas crianças a desenvolverem essa capacidade. Explicando aos professores como o cérebro funciona em termos de resiliência, dando-lhes algumas sugestões de coisas que podem fazer para ajudar as crianças a desenvolver essas aptidões. Se estão preocupadas com coisas que aconteceram no passado, ou se estão preocupadas com o futuro, ou se quando chegarem a casa ao final do dia o pai lhes vai bater de novo. Conseguimos ensinar-lhes pequenos truques que os impeçam de pensar no passado, no futuro e simplesmente viver no presente. Seja concentrando-se na sua respiração, focando-se numa parte de corpo ou até mesmo numa árvore que consigam ver através da janela.
 
MBC – Já teve algum retorno dos professores com os quais trabalhou? Se viram progressos nas crianças após a aplicação dos métodos que lhes transmitiu?
JL – Felizmente, sim. E o que me disseram foi simplesmente fantástico. Confessaram-me que antes de falarem comigo já tinham começado a perder o interesse no trabalho que faziam, que era muito difícil, cansativo, o que não ajudava a escassez de recursos. Mas que felizmente os ajudei a relembrar o motivo pelo qual o tinham começado a fazer. Em primeiro lugar e pela primeira vez em anos estavam ansiosos por regressar à escola. Esta é realmente a prova do melhor uso do meu tempo.

MBC – Então o que faz é colocar a pesquisa dos seus colegas em campo.
JL – Basicamente. O que é óptimo para mim que não gosto muito de fazer pesquisa.

MBC – Está a dizer-me que pega na informação deles, reúne os resultados e leva-os de volta para que os seus colegas possam analisar os dados que recolheu, publicar artigos e trocar informações sobre esses mesmos resultados com outros cientistas em conferências.
JL - É melhor para mim porque não sou o melhor pesquisador do mundo. Mas sou muito bom a ler as pessoas, a reunir informações. É como o que faço quando escrevo. Pego em tudo o que faço tentando ter uma visão de helicóptero sobre a situação em questão e apenas reúno as informações mais relevantes para contar a história.

MBC – Como consegue tempo para fazer tudo o que faz?
JL – Não tenho um emprego com horários, um escritório para o qual tenha que ir todos os dias. Sou eu que organizo o meu tempo e durmo todas as noites oito horas seguidas o que também ajuda.

MBC - Para aqueles leitores que olham para o seu livro e não sabem o que esperar, qual é o conselho que deixaria para que o lessem?
JL – O livro é uma espécie de aventura entre tudo o que a religião e a ciência dizem sobre a melhor maneira de podermos viver com os sete pecados mortais, fazemos as coisas com a moderação necessária para que sejam bons para nós. Avisando-nos, no entanto, que se forem levados aos extremos causam graves problemas. É um livro escrito de maneira acessível e interessante, sem a densidade da ciência nem a profundidade da religião. Aproveitando a melhor aprendizagem e as melhores evidências que ambas conseguem produzir, pegando no melhor das duas, juntando-as de maneira a tornar-nos melhores.

Texto: MBarreto Condado
Fotos: Mário Ramires


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