domingo, 20 de outubro de 2019

HOMENS ESQUECIDOS, de Fernando Teixeira















A todos aqueles que trabalharam mais do que os demais, com um esforço e com uma tenacidade maiores do que todos os outros, enfrentando riscos desmedidos nos mares do Atlântico Norte. Em todos eles, o selo da bravura, de uma resistência sobre-humana e persistência inesgotável, colado à pele com dor, suor e sal. Uma hora mais, uma milha mais, um peixe mais…
Foram décadas a caminho dos Grandes Bancos da Terra Nova e da Gronelândia, na busca do “fiel amigo” em pequenos lugres, patachos e navios-motor, debatendo-se nos vagalhões oceânicos, numa dança ao som do sino de nevoeiro, vertigem que faria qualquer humano vomitar as tripas, porém não aqueles bravos homens que mais facilmente enjoariam em terra firme do que no mar.

Nos cais deste país, ficavam as suas esposas e mães, muitas delas vestidas de negro como que pressagiando desgraças, com as cabeças cobertas por lenços e xailes, por tradição e para as proteger da brisa marítima. Todas numa sinfonia de choro, gritos, ansiedade e desespero pela separação forçada, agarradas ao pescoço dos seus maridos e filhos, como se pudessem impedir a sua partida, temendo que fosse a última vez que os viam. Crianças choramingando ao colo dos pais e avôs, um colo que não voltariam a sentir durante meses. Durante a travessia do Atlântico Norte, estas imagens permaneciam na mente daqueles homens, entre lágrimas da alma que só o rosto conseguia conter, enquanto preparavam os seus dóris, frágeis botes a que confiariam a vida durante mais uma campanha.

Chegados aos pesqueiros, centenas de pescadores entregavam-se a uma das mais duras actividades que se possa imaginar. Começando um dia de faina pelas quatro horas da madrugada, arriavam os seus dóris ao mar às ordens do capitão, neles pescando solitariamente durante doze horas, apenas com um magro farnel para se alimentarem. Demoravam duas horas só para iscar as centenas de anzóis das linhas, o trol. Após horas de espera, o trol era alado e o bacalhau capturado era atirado para o fundo do dóri. Quanto mais pescassem, mais recebiam no final da campanha. Quanto mais depressa enchessem o porão de salga do navio, mais depressa regressariam a Portugal e às suas famílias…

Quando o dóri estava composto, por vezes tão carregado que corriam o risco de naufragar, regressavam ao navio-mãe, tendo ainda de remar várias milhas conforme a distância a que se tivessem afastado. Corpos maçados, braços doridos, as mãos numa lástima cortadas pelas linhas… Novo esforço, era preciso garfar todo o bacalhau capturado e atirá-lo sobre a amurada do navio. Só depois, bote e homem podiam ser içados para bordo. E, a seguir, nova tarefa. Era necessário amanhar o peixe todo e cada homem assumia as suas funções a bordo, com destreza e ordenadamente, tornando o navio numa fábrica de processamento de pescado em alto-mar: uns cortavam as cabeças, outros evisceravam, outros escalavam. Só depois de todo o peixe amanhado e enviado para o porão de salga, aquelas almas comiam uma refeição quente, antes de recolherem às camaratas para dormir três ou quatro horas.

Uma vida duríssima, alimentação pobre e água potável racionada, sem condições de higiene, lavando-se a bordo só com água do mar, sujeitos à disciplina rígida dos oficiais e aos constantes perigos, nomeadamente o risco de naufrágio e o de se perderem em densos nevoeiros. Homens simples e valentes a quem essa vida marcou de forma indelével e que a contam como se tivesse sido ontem. Homens cujo trabalho o Estado explorou, esquecendo o seu esforço e como foram então importantes para o desígnio nacional, condenando-os agora a reformas miseráveis.

Foi para relembrar estes homens esquecidos, para honrar os que ainda vivem e homenagear os que já partiram, que eu escrevi o romance Por Entre As Brumas De Newfoundland. Ainda que a pesca de bacalhau à linha em dóris se tenha perdido no tempo, que não se perca da nossa memória! Que não se esqueça o que foi a epopeia da Faina Maior e a Frota Branca portuguesa.

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